sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ele só queria ver a rede estufar!

O Múcio Luiz é Bezerra...


...e, como Dario, só quer ver a rede estufar



Além de Múcio Bezerra, este texto é dedicado aos saudosos amigos Elaine Rodrigues, Rodolfo de Bonis e Sebastião Reis, que evitaram os calhaus da vida, anteciparam o fechamento e foram embora mais cedo.



Dario veste a camisa 9 do Internacional na decisão antecipada contra o Fluminense, domingo de muito sol no Maracanã, 10 de outubro de 1976. Empate eletrizante, 1 a 1. Rivelino e Falcão não jogam. Outros craques estão em campo. Pintinho, Gil, Paulo César Caju e Carlos Alberto Torres compõem a Máquina Tricolor. Batista, Manga, Lula e Figueiroa defendem o Expresso Colorado. Jogo nervoso, disputadíssimo. Em determinado momento de pressão carioca, no segundo tempo, o contra-ataque gaúcho: Batista retoma a bola na intermediária e lança, em profundidade, o ponta-esquerda Lula que, veloz, se livra do goleiro Renato e toca para a meia-lua. Gol vazio. Dadá Maravilha bombardeia. Jorge Cúri berra aos ouvidos em suspense. A bola toma velocidade e efeito espantosos, raspa o travessão. Alívio de um lado. Irritação de outro. Perplexidade geral.


Ao ser substituído por Escurinho, Dario é imediatamente cercado pelos microfones.


- O que houve, Dadá? O gol estava vazio...era só dar um totozinho que a bola entrava...


Dadá para à beira do gramado, respira fundo, sorri e sentencia:


- Eu queria era ver a rede estufar!

Pelas ondas do rádio, a resposta singela de um goleador folclórico incendiava a imaginação. Terceiro maior artilheiro do futebol brasileiro (926 gols de todos os ângulos e maneiras), Dario filosofara. Era a questão exata: as pessoas já se conformavam (conformam-se cada vez mais) com o meio-gol, o gol mixuruca, chorado, medíocre, em que a bola às vezes sequer toca na rede. E piorou muito nos últimos 30 anos. O importante é somar um pontinho, para se manter no G-4, no G-8, no G-12 (expressões emprestadas ao economês), como um país emergente no "mundo plurilateral". Qualquer migalha serve, desde que nos ajude a pôr os pés em certames lucrativos, uma Libertadores, uma Sul-Americana. O desprezo pela bola e pela rede é indignante!


Muitos anos depois, a história do petardo de Dario voltaria a ser lembrada na conversa inaugural com o companheiro Múcio Bezerra, no Galeto, na Rua de Santana, em frente a O Globo, entre doses de Teacher's, Red Label, azeitonas, rodelas de salaminho e cubinhos de queijo prato. Estávamos nos conhecendo naquela tarde e começando a construir uma amizade que superaria barreiras geográficas e temporais. Múcio ajeitava os óculos e prestava atenção de coruja. Três horas se passaram, o assunto mudara completamente de rumo, e Múcio, a cabeça um tanto tonta, preparava-se para partir, quando rematou, escandindo as palavras:


- É, rapaz...Essa história do Dario é do caralho...Dava uma puuuta matéria! Eu que-ro é ver a re-de es-tu-far! Ho! Ho! Ho! (Ele tinha uma risada de Papai Noel).

A partir de então, a sentença do Dario se tornaria um código secreto entre nós, palavras de incentivo mútuo, diante de uma boa história, de uma "puuuuuta matéria". E mesmo com uma pauta ingrata, Múcio saía feliz da redação e quase sempre surpreendia a chefia, porque construía, com observação sagaz e texto brilhante, a "puuuuuta matéria." Voltava esfregando as mãos:

- É hoje...é hoje que a rede vai estufar!


Certa vez, Múcio telefonou à noite para o flat onde morávamos em São Paulo para comentar uma reportagem de três páginas veiculada na Gazeta Mercantil, "O Rio que fez de um Joaquim Maria o Machado de Assis", a propósito do centenário da primeira edição de Dom Casmurro.

- Aíii, canalha! A rede estufou e deu para ouvir o barulho da arquibancada!

Jornalista que não trabalhou nas redações de O Globo e do JB nos últimos 15 anos do século passado, tem um motivo justo para se sentir frustrado: o de não ter labutado, aprendido, conhecido, convivido e bebido com o Múcio Bezerra, o texto mais criativo da imprensa carioca. Múcio tinha tudo o que, infelizmente, falta à parcela significativa dos colegas de hoje: competência, generosidade, companherismo, inteligência, sensibilidade crítica, adoração transgressora pelas palavras e muito bom humor. Ele nunca se levou a sério, condição sine quae non para se ser realmente levado a sério. Jamais foi carreirista, lambe-botas ou puxa-saco, motivo por que, talvez, fosse tão sinceramente querido por Evandro Carlos de Andrade, diretor de redação de O Globo por 25 anos, e por todos os funcionários do jornal, os colegas de profissão, as secretárias, as telefonistas, os faxineiros e os ascensoristas.


Um dia, por castigo, inveja ou bizarrice, inventaram de escalar o Múcio, por uma semana, na Repol, salinha de três metros quadrados da apuração, com duas linhas telefônicas, dois terminais de computador (Internet não havia) e um velho aparelho de radioescuta, que captava as frequências emitidas pelas centrais de telecomunicações dos bombeiros e das polícias civil e militar. Surpreendentemente, ele adorou a experiência. Pendurava o indefectível paletó cinza escuro no encosto da cadeira e ficava lá no canto, ouvido grudado no radinho, como torcedor fanático em final de campeonato. Anotava tudo. Em dois ou três dias, estava escolado no policialês.

Naquela semana de degredo, Múcio chegava sorridente à Sibéria particular:


- Alô, Repol, na escuta? Câmbio, guarnição em QAP! - anunciava, às gargalhadas.

- Companheiro Papa Mike, a genitora do mesmo elemento que se evadiu procurou um Papa Fox e um Bravo Mike, dizendo se tratar de um Papa Índia, que entrou num Tango Xiraia...- tartamudeava o rádio fanho.


Exegeta do submundo, Múcio concentrava-se para fazer a tradução simultânea: "Caro policial militar, a mãe do homem que fugiu procurou um policial federal e um bombeiro conhecidos, dizendo que o filho era um pé-inchado e escapara num táxi..." Restava só decodificar os números cantados no rádio da polícia: 121, 159, 932... e decorar os que correspondiam a homicídio, extorsão mediante sequestro, encontro de cadáver...

Feito o curso intensivo de Direito às avessas, Múcio redigiu uma reportagem extraordinária sobre o estranho léxico policialês. A reportagem foi sucesso de público e crítica. Divulgava para a sociedade, divertidamente, como a imprensa tinha acesso privilegiado (e proibido) às informações básicas das ocorrências policiais.

- Viu lá? A rede estufou! Golaço! Ho-ho-ho! - comemorava o potiguar, que talvez nunca tenha chutado uma bola.

Quando saía da redação às sextas-feiras (às vezes, em dias menos convenientes também), Múcio preparava-se para o serão, repórter diuturno que era. O itinerário começava no Bar do Felipe, na Rua Irineu Marinho, passava pelo Galeto e pelo Rocha (na Rua do Riachuelo, em frente ao jornal O Dia), seguia pela Gomes Freire, a Mem de Sá, a Lapa, a Praça XV...até chegar a Niterói, para a saideira sagrada no Steak House. Nas andanças noturnas, colhia histórias de putas, mendigos, malandros, boêmios, policiais do Coe (hoje Bope)... E as escrevia como ninguém!


Quem não se lembra das crônicas-reportagens do jaboti vítima de bala perdida de fuzil, do cachorro que calculava, do perfil romário do pai do Hilário ("o copo do mundo é nosso!"), da cadeira do Luís Carlos Prestes, da avenida do Sr. Amaral e do Sr. Peixoto? Praticamente, ninguém. É por isso que os repórteres Fábio Lau e Elenilce Bottari ("as mais belas e torneadas pernas do jornalismo", segundo o homenageado) decidiram se empenhar no lançamento de uma coletânea da obra jornalística de Múcio Bezerra,"uma campanha do jornalismo esperança". Sem deducão fiscal, todo o dinheiro arrecadado com a venda do livro será revertido para a família do jornalista, as filhas Aline e Maria e o gato de estimação, o Duque de Macau, cidade de 28 mil habitantes, a 175 quilômetros de Natal, onde nosso craque nasceu.


Múcio, aliás, tinha paixão por felinos e uma das últimas publicações em que trabalhou se chamava O Pulo do Gato. Um dia interrompeu o trabalho, porque a mulher o telefonara chorando: um gato siamês - das dezenas que teve - jogara-se do décimo-terceiro andar. "Os siameses são suicidas, e agora a minha casa virou uma UTI", ria-se, no dia seguinte, ao imitar o pobre gato com as quatro patas enfaixadas, depois de socorrido por uma guarnição da Defesa Civil. O amor pelos gatos inspirava até a ética muciana. "Sou muito leal, mas jamais serei fiel", dizia. "Fidelidade é uma atribuição canina, a lealdade é leonina, e o leão nada mais é que um grande gato."


Depois de trabalhar como topógrafo e técnico de Estradas de Rodagens - mais uma estranha coincidência que nos unia -, Múcio fez Jornalismo no início dos anos 80 e começou em redação com mais de 30 anos. Tinha opiniões próprias sobre o exercício da profissão. Dizia, por exemplo, que jabá é tudo aquilo que se recebe e não se pode retribuir de pronto, se necessário. "Jabá é carro, apartamento, dinheiro. O que há de mau em receber de uma assessoria uma caneta, um bloquinho, uma agenda ou uma garrafa de uísque? São tão úteis pra nós!", ponderava. Múcio também se empombava com a históra de jornalista depender de fontes, as mesmas pessoas que constantemente passam informações supostamente exclusivas a troco de vai se saber o quê. "Ora, ora, ora...quem tem fonte é cemitério e jardim!"


Múcio bebia muito (uísque e cerveja) e também fumava demais (pelo menos três maços diários de Minister), mas nunca bebeu durante o expediente convencional. Às vezes, de ressaca, preferia faltar ao trabalho a dar bandeira. Só uma coisa intrigava o departamento financeiro, quando Múcio voltava de viagens custeadas pelo jornal: a quantidade de jarras de suco que ele declarava, em notas fiscais, ter bebido a cada refeição. "Ele deve ter pedras nos rins", disfarçavam os mais chegados. Durante o carnaval, por exemplo, só água mineral com gás. Tinha à disposição duas páginas inteiras de crônica para cada dia de desfile das principais escolas de samba. Mesmo quem passava a madrugada na Passarela, só entendia a confusão, o burburinho, as tragédias e maravilhas do desfile, lendo o Múcio Bezerra do dia seguinte. E ele curtia aquela sensação, aquele estufar das redes. E desdenhava dessa vidinha medíocre do zero a zero.


Múcio Luiz Bezerra lutou contra o câncer até a madrugada do último 12 de maio, quando nos deixou, aos 60 anos. Viveu os últimos dias em Nova Friburgo, na região serrana do Rio, em dificuldades financeiras e com a ajuda de amigos. Assim mesmo, com a voz fraquinha, atendia ao telefone com o mesmo sorriso de Papai Noel e a pergunta recorrente: "E aí? A rede vai estufar?"


Cláudio Renato






sábado, 22 de agosto de 2009

Entre Canudos e Piedade, o Cosme Velho

Euclydes no enterro de Machado de Assis, em 1 de outubro de 1908. Ele carrega o caixão, juntamente com Olavo Bilac, Graça Aranha, Coelho Netto, Rui Barbosa, Raimundo Correia, Rodrigo Otávio e Affonso Celso
Euclydes da Cunha
Por ocasião do centenário da morte de Euclydes da Cunha, assassinado aos 43 anos, em 15 de agosto de 1909, uma tragédia social e outra pessoal são lembradas recorrentemente. A primeira é a de Canudos, no sertão baiano, entre os outubros de 1896 e 1897, quando pelo menos 25 mil jagunços foram dizimados por quatro expedições do Exército da Primeira República. A segunda é a de Piedade, subúrbio do Rio, onde Euclydes encontrou o próprio fim ao invadir a casa do comborço, o tenente Dilermando de Assis, pai de dois filhos da mulher de Euclydes, Saninha, registrados pelo escritor. O primeiro deles, Mauro, nascido em 1906, morreu com uma semana de vida, porque Euclydes o trancara em um quarto e não deixara que a mãe o alimentasse. Exímio atirador, Dilermando deu cabo à vida de Euclydes e, seis anos mais tarde, à de Euclydes da Cunha Filho, o Clidinho, que tentava vingar a morte do pai. Ana de Assis viveu 15 anos com Dilermando até ser abandonada, aos 50 anos, com cinco filhos.
Em Canudos, Euclydes da Cunha, egresso da Escola Militar e republicano de primeira cepa, recolhera, como correspondente do jornal A Província de São Paulo (atual O Estado de S. Paulo), farto material para escrever Os Sertões (1902), a reportagem excepcional que faz dele, no Brasil e no mundo, um dos pioneiros do Novo Jornalismo avant la lettre. Para o leitor moderno, a primeira parte do livro é chatíssima, concessão natural ao realismo e ao determinismo vigentes à época. O final da obra, contudo, é eletrizante, porque o próprio Euclydes, como repórter, superara, diante da realidade, os preconceitos iniciais, de que Antônio Conselheiro seria um corifeu monarquista com articulações internacionais, fanático, anarquista, socialista, líder de uma espécie de Vendeia, a comunidade rural francesa que resistira à Revolução de 1789 em prol do Rei e do Vaticano. Sequer armas os sertanejos tinham, a não ser aquelas que capturavam dos soldados. Foram chacinados e covardemente degolados homens, mulheres, velhos e crianças.
Depois de descrever as atrocidades de Canudos e antes de morrer a tiros em Piedade, Euclydes da Cunha testemunhou a morte do maior escritor que o Brasil já teve e jamais terá, Joaquim Maria Machado de Assis, na casa 24 da Rua Cosme Velho, no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. Euclydes deixou um texto apaixonado e muito pouco conhecido sobre a morte do mestre, vítima de câncer na língua. Está registrado em uma página amarelada no Arquivo do Centro de Memória da Academia Brasileira de Letras. Euclydes descreve, emocionado, os últimos momentos de Machado de Assis - triste e solitário - e a aparição inesperada, naquela noite, de um menino anônimo "entre os 16 e 18 anos". Ele não identifica o rapaz, recusa-se a fazê-lo, mas exalta-lhe a atitude. "Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis – aquele menino foi o maior homem de sua Terra."
Eis o testemunho histórico de Euclydes da Cunha:

"Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dizia o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras – ontem meninas que ele carregara no colo, hoje nobilíssimas mães de família – comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados em álbuns caprichosos.

As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a placidez era completa no recinto, onde a saudade glorificava uma existência, antes da morte. No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranqüilos. E compreendia-se desde logo a antilogia de coração tão ao parecer tranqüilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incomparável e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor.

Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se a pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranqüila e soberana. E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte...

Mas aquela placidez aguda despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento. De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas – que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos.

Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional. Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade interira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade sua existência complexa, quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa...

Neste momento, precisamente ao enunciar-se este juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada. Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa idéia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas do seu estado. E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu. À porta José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho. Mas deve ficar anônimo.

Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis – aquele menino foi o maior homem de sua Terra. Ele saiu – e houve na sala há pouco invadida de desalentos uma transfiguração. No fastígio de certos estados morais concretizaram-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade."


Aquela "criança" se chamava Astrojildo Pereira. Tinha 18 anos. E seria, em 1922, o fundador do Partido Comunista do Brasil (PCB) e um dos principais intelectuais marxistas no Brasil até a morte, em 1965. Euclydes tinha razão: Astrojildo Pereira nunca subiria tão alto na vida quanto naquela noite, no antigo bangalô do Cosme Velho.


Cláudio Renato

domingo, 16 de agosto de 2009

As razões do Doutor Getúlio



À memória de Leonel Brizola (1922-2004)

Apesar de aboiar em uma estância pobre, Getúlio tinha, àquela altura, quase 60 anos, duas pretendentes ricas e poderosas: Germânia e América. A primeira, autoritária e sonhadora. A outra, caprichosa e interesseira. Ambiciosas, queriam açambarcar o mundo, mas, para tanto, precisavam de uma pousada bélica no ensolarado litoral do Nordeste brasileiro com vista privilegiada para a África. As duas disputavam a atenção de Getúlio, que não queria saber de compromisso. Em setembro de 1939, Germânia, em acesso de fúria e excesso de covardia, empastelou a Polônia - singela camponesa do Leste Europeu - e mostrou a Gegê e a quem mais se atrevesse a enfrentá-la que não estava para brincadeiras. A América também brandia seus rolos de pastel. Elas passaram a exigir do estancieiro gaúcho uma definição. Como todo macho latino, ele odiava discutir relações e conseguiu, durante três anos, cozinhar o galo e se manter politicamente solteiro.



Determinada e arrogante, Germânia despertou a cobiça de Getúlio, em suas conveniências e interesses secretos. Ela não queria exatamente se casar com o caudilho atarracado de São Borja, mas, pelo menos, impedir que ele se unisse à rival mais jovem e à Inglaterra, então a principal inimiga. O chefe do Brasil chegou a atacar diretamente o liberalismo hipócrita e ciumento da América e a se irritar com aqueles que queriam que rompesse definitivamente com as pretensões germânicas. "Grande parte desses elementos que aplaudem esta atitude (romper relações diplomáticas com a Alemanha) são os adversários do regime que fundei (o Estado Novo), e chego a duvidar que possa consolidá-lo para passar tranquilamente o governo ao meu substituto", ameaçou. "Parece-me que os americanos querem nos arrastar à Guerra, sem que isso seja de utilidade, nem para nós, nem para eles", ponderou. "É mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na Guerra", ironizou. Ameaças, ponderações, ironias jamais feitas publicamente, mas descobertas no Diário de Getúlio Vargas (1917-1942). O papelório foi guardado ciosamente, por quatro décadas após o suicídio de Getúlio, pela filha Alzira Vargas do Amaral Peixoto e revelado pela neta, a pesquisadora Celina Vargas do Amaral Peixoto, do Centro de Pesquisas e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas.



Público era que o governo brasileiro, nem por decreto, queria entrar na Guerra. Aliás, por um decreto (DL 1.561/39), publicado em 2 de setembro de 1939, dia seguinte à deflagração do conflito, tornava explícito que nos incluíssem fora dessa. "O Governo do Brasil abster-se-á de qualquer ato que, direta ou indiretamente, facilite, auxilie ou hostilize a ação dos beligerantes. Não permitirá também que os nacionais ou estrangeiros, residentes no país, pratiquem ato algum que possa ser considerado incompatível com os deveres de neutralidade do Brasil", dizia o documento.



O fim da história é conhecido. Por causa de uma conferência de países sul-americanos, no início de 1942, no Rio de Janeiro, Germânia dediciu dar um corretivo em Gegê. O ditador não queria, de jeito e maneira, aquela reunião de representantes diplomáticos aqui, porque temia justamente a represália alemã. Os países vizinhos decidiram, no Rio, condenar o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, no Havaí, e romper relações com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). A América entrou na guerra, de norte a sul. Vinte e um submarinos alemães e dois italianos afundaram 36 navios mercantes brasileiros e deixaram 1.691 náufragos e 1.074 mortos pela costa brasileira.



Getúlio casou-se com a América na polícia, de papel passado, em troca de uma usina de aço em Volta Redonda e de uns afagos de Walt Disney e Orson Welles. Os americanos montaram a tão sonhada base militar no Rio Grande do Norte. A Força Expedicionária Brasileira (FEB) rumou para a Itália, 454 heróis nacionais desconhecidos foram fabricados pela história dos vencedores, e o país foi inundado de ioiôs importados dos Estados Unidos.

A propósito do momento do crítico vivido por Getúlio Vargas, entre pressões de aliados e germanófilos, sob a expectativa de o Brasil entrar ou não na Segunda Guerra, Leonel Brizola nos contou, em Montevidéu, uma história divertida e instrutiva da dialética getulista. O depoimento deveria constar de uma reportagem especial sobre os 60 anos do Estado Novo no jornal O Estado de S.Paulo. Um tema delicado para a elite paulistana, que nutre ódio eterno a Getúlio, contra quem levantou uma "revolução constitucionalista" em 1932. São Paulo, a capital, talvez seja a única cidade do Brasil em que nada deva lembrar Getúlio. Praças, hospitais, avenidas e ruas Brasil afora, Getúlio lá só é nome da própria fundação, que os paulistas, constrangidos, chamam de GV. Eles têm os motivos deles. Pelo sim e pelo não, a reportagem foi muito bem publicada, mas o depoimento de Brizola, não. Segue-se então a história (ou anedota) relatada pelo ex-governador do Rio e do Rio Grande do Sul.


Getúlio vivia dias turbulentos naqueles idos de 1942. Certa tarde, estava no gabinete presidencial com a primeira-dama, Darcy, quando o ministro do Exército, Eurico Gaspar Dutra, agitado e insuflado pelo chefe do Estado-Maior, Pedro Aurélio de Góes Monteiro (germanófilo assumido), pediu licença para falar com o presidente.

- Pode falar, Dutra!

- Presidente, tenho conversado com Góes Monteiro e outros oficiais superiores. Estamos convencidos que o Brasil não pode tomar partido dos americanos e ingleses. O Brasil não pode entrar na Guerra. Seria sacrificar vidas à toa. Uma nova ordem mundial pode estar surgindo e não podemos nos precipitar...

Getúlio olhava Dutra atentamente. Eles se conheceram, rapazotes, nos primeiros anos dos 1900 durante o serviço militar no Rio Grande. Dutra e Góes Monteiro eram cadetes da escola em Porto Alegre. Gegê, sargento, participaria da Coluna Expedicionária do Sul, que se deslocou para Corumbá, em 1902, durante a disputa entre a Bolívia e o Brasil pelo Acre. Caminhavam juntos na vida e na política havia 40 anos.

Quando Dutra parou de falar, Getúlio deu-lhe um abraço fraternal e emocionado:

- Amigo Dutra, você tem razão!

E o ministro do Exército deixou o gabinete sorridente e triufante.

Coincidentemente, poucos minutos se passaram, até que se anunciasse a presença do ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, o maior aliado dos Aliados no governo brasileiro.

- Presidente, venho lhe falar de guerra e de paz. Só existe uma maneira de o mundo ficar em paz. É preciso lutar contra as loucuras e atrocidades de nazistas e fascistas. O Brasil pode exercer um papel estratégico nesta Guerra, a favor da liberdade e da democracia...

Getúlio não desgrudava os olhos de Aranha, a quem conhecera em 1917. Nessa época, Gegê já era advogado e Aranha mantinha uma banca na cidade de Uruguaiana, no Rio Grande. As consultas sobre assuntos jurídicos passaram a ser frequentes e ambos chegaram a ter clientes comuns. As afinidades nas lides políticas só estreitariam mais a amizade e a confiança com o passar dos anos.

Quando Oswaldo Aranha se calou, Getúlio segurou firmemente os dois braços do ministro e o encarou decidido:

- Querido Aranha, você tem razão!

O chanceler abriu um largo sorriso, cumprimentou o chefe e saiu flutuante do gabinete.

Dona Darcy, que a tudo assistira, não se conteve. Levantou-se e interpelou o marido:

- Getúlio, o que é isso? São seus amigos e colaboradores fiéis... Vieram tratar do mesmo assunto, muito grave, falaram coisas opostas e você deu razão aos dois?

Gegê olhou com ternura para a mulher, com quem se casara havia mais de 30 anos e tivera cinco filhos. O próprio casamento, um ato político, acabara com a rivalidade de duas famílias iniciada na Revolução Federalista de 1893, uma história de Romeu e Julieta às avessas.

Getúlio esperou Darcy acabar de falar e sorriu complacentemente. Segurou as mãos da mulher, acariciou-lhe demoradamente o rosto e, por fim, obtemperou:

- Darcy, minha amada companheira... Você também tem razão!


Cláudio Renato



VEJAM E OUÇAM DISCURSO DE GETÚLIO VARGAS, NO DIA DO TRABALHADOR DE 1951, NO ESTÁDIO SÃO JANUÁRIO.
http://www.youtube.com/watch?v=LQCV1iFegZg

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Borges, entre Homero e Gardel


"Creio que há algo essencialmente portenho em mim, para além das minhas opiniões. Devo tal convicção a um fato secreto. Ultimamente, tenho viajado muito e gostado muito de descobrir cidades, ainda que as descubra pelos olhos dos outros, porque estou cego. Mas, com certeza, todas as noites tenho sonhos muito diferentes, e nos meus sonhos sempre estou em Buenos Aires."

(Borges, aos 86 anos, pouco antes de morrer em Genebra)


Jorge Luis Borges (1899-1986) viveu os primeiros 20 anos praticamente enclausurado entre livros, dicionários, enciclopédias. Os últimos 30 foram roubados pelas trevas da cegueira hereditária e progressiva. Entre os dois exílios de fantasias e sombras, situam-se três décadas de um cidadão comum, que experimentou em Buenos Aires o mundo real das formas e das cores, mesmo enxergando mal. A cidade é cenário de seus ensaios e contos mais importantes e enigmáticos. A luz, ainda que bruxuleante, o aproximava de Gardel. As sombras o remetiam ao grego Homero, poeta cego do século VIII a.C ao qual se atribui a autoria das epopeias fundadoras da literatura ocidental, Ilíada e Odisséia.


Borges, que em 24 de agosto completaria 110 anos, não concebia para si alternativa possível a Buenos Aires. "Se houvesse nascido em qualquer outra parte, em Yorkshire, um lugar mais lindo que este, não seria eu, mas outra pessoa." Adolfo Bioy de Casares, um dos grandes expoentes da literatura argentina do século XX, deixou um testemunho sobre o amigo antes de morrer, em 1997. "Borges temia viajar na velhice porque não queria morrer longe da cidade natal." Mesmo doente foi para a Europa, em 1985, porque não queria contrariar Maria Kodama, a última mulher, de quem dependia completamente no fim da vida. É incrível que, até hoje, o parlamento argentino discuta o repatriamento dos restos mortais do maior escritor do país, que está sepultado em Genebra e expressava o desejo veemente de, na eternidade, voltar a morar em Buenos Aires, no cemitério da Recolleta.


Por ocasião do centenário de morte de Borges, estivemos em Buenos Aires para uma reportagem especial publicada no Fim de Semana, o caderno cultural da Gazeta Mercantil. Entre queijos e vinhos, na casa de um professor de literatura argentina, apaixonado pela cultura brasileira, falávamos (como sempre) de Dorival Caymmi. Bem-humorado, o anfitrião arrematou. "Como diria Borges, quem não gosta de tango bom sujeito não é!"

No verão de 1914, Borges sentiria, pela primeira vez, nostalgia da cidade, quando o pai, o advogado Jorge Guillermo Borges, levou a família para a Europa: a mulher, a sogra e a filha de 12 anos - as três Leonores - e o menino Georgie, então com 14 anos, que, aos 7, escrevera um conto baseado em Dom Quixote e, aos 11, publicara a tradução de O príncipe feliz, de Oscar Wilde.
Pertencente à quinta geração que padecia de cegueira degenerativa na família, Jorge Guillermo viajava para consultar um oftalmologista em Genebra. Enquanto durassem os prováveis meses de tratamento, os filhos estudariam num colégio suíço. A Primeira Guerra dilatou para sete anos a estada no Velho Mundo. "Os anos que vivi na Europa são ilusórios/Estava sempre (e estarei) em Buenos Aires", resgistraria Borges, no poema Arrabal (1943).
Jorge Guillermo e o Georgie adoraram a viagem. Georgie, aliás, era o apelido de Borges, dado pela avó materna, a inglesa Fanny Haslam de Borges, que morreu aos 93 anos, também cega, sem ter querido aprender a falar espanhol. As três Leonores, enjoadas, recolheram-se ao camarote. Quando o navio aportou no Rio de Janeiro, Georgie ficou observando a cidade, que considerou encantadora. De repente, fixou o olhar em outro garoto, que declamava um poema popular, que Borges se recordaria com emoção na velhice. "Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá/ As aves que aqui gorjeiam/não gorjeiam como lá". O final do poema de Antônio Gonçalves Dias (1825-1864) provocaria lágrimas no pré-adolescente argentino. "Não permita Deus que eu morra/sem que volte para lá."
O episódio é contado por Maria Esther Vàzquez na biografia Jorge Luis Borges - Esplendor e Derrota (publicada no Brasil pela editora Record). Ela compara os destinos do portenho Borges e do maranhense Gonçalves Dias. Filho mestiço de um comerciante português e de uma cafuza, Dias estudou na Universidade de Coimbra, em Portugal. Voltou ao Brasil, mas, tuberculoso, foi obrigado a retornar à Europa. Ao perceber que não teria salvação, o poeta e dramaturgo brasileiro, aos 39 anos, quis morrer onde nascera. O navio que o trazia de volta naufragou perto da costa do Maranhão. "Borges também não teve sorte", diz Maria Esther. "Doente, morreu longe da cidade que tanto amara."

Borges gostava de percorrer sua cidade em longas caminhadas. Em El Tamaño de Mi Esperanza (1926), enfatiza que "é preciso encontrar-lhe a poesia, a música, a pintura, a religião e a metafísica que se coadunam com tamanha grandeza." Errante do centro e dos bairros pobres, considerava a cidade um labirinto de linhas retas e paralelas. "Buenos Aires é profunda e nunca, na desilusão ou no penar, me abandonei às suas ruas sem receber inesperado consolo." Já consagrado, divertia-se com o assédio dos fãs. "Eles me consideram um velho poeta cego, um Homero local."
Eterno candidato ao Prêmio Nobel, caminhava um dia qualquer de 1980 escorado pelo amigo Roberto Alifano pelo setor bancário da rua San Martín, quando, da boleia de um caminhão, um homem, entusiamado, berrou a plenos pulmões: "Borges e Maradona para todo mundo!" O escritor gargalhou. "Caramba! Vá gritar assim em Estocolmo; quem sabe não conseguiria convencer a Academia Sueca?" Conta a lenda que Borges, já cego, com o apoio da bengala, ao atravessar a avenida 9 de Julio, a mais larga do mundo, com 144 metros de pista, sentiu uma pressão em um dos braços. Alguém o acompanhava na longa travessia até a calçada oposta, onde Borges ficou surpreso ao ouvir a voz comovida. "Agradeço por ter guiado este cego."
Para Borges, o momento mais importante da vida "foi a volta de minha primeira viagem à Europa, em 1921." A partir de então, o escritor pôs-se a esquadrinhar Buenos Aires, principalmente os subúrbios das rinhas de galo, dos pampas, dos cuchilleros e compadritos, desordeiros que defendiam a honra na ponta do punhal. Dessa investigação, surgiram livros de poesia, como Fervor de Buenos Aires (1923), Luna de enfrente (1925) e Cuaderno San Martin (1929), além dos ensaios Inquisiciones (1925), El Tamaño de Mi Esperanza (1926) e Evaristo Carriego (1930).

Na Europa, Borges esteve envolvido com o ultraísmo (movimento de vanguarda). Em Buenos Aires, desenvolveu o que chamava de criollismo. Gostava do tango original, prostibulário, e chegou a menosprezar o sentimental Carlos Gardel (1890-1935), mas voltaria atrás. "Tenho notado que, em geral, os canalhas são sentimentais. Está comprovado no tango, música canalha e sentimental ao mesmo tempo."
Borges compôs letras de milongas musicadas por Astor Piazzola. Desprezava sistematicamente o bairro La Boca, onde fica o Caminito, uma das ruas mais conhecidas do mundo, com conventillos coloridos. Era talvez o único sítio popular que evitava, apesar de considerá-lo interessante. Colonizada por imigrantes genovezes, La Boca, às margens do rio Riachuelo, seria, para Borges, "menos argentino" que outros bairros do sul. Para o mexicano Carlos Fuentes, "o primeiro narrador totalmente centrado na cidade é Borges." Quando dirigiu a Biblioteca Nacional (1955-1973), Borges, completamente cego, não podia desfrutar do paraíso de 900 mil livros ao alcance das mãos. Ocupava-se então em brincar com um globo terrestre; fazendo-o girar, punha o dedo num ponto e torcia. "Tomara que seja em Buenos Aires." Diante do eventual insucesso, reagia: "Não se pode ter tudo na vida."
Cláudio Renato
OUÇAM EL TANGO, COM POEMA DE JORGE LUIS BORGES

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O feiticeiro do Boulevard

Só com muita ingenuidade ou caradurismo se pode ignorar o recado explícito deixado por Noel Rosa em "Feitiço da Vila", quando, ao quebrar o paralelismo geográfico e lógico, diz que "São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba." Aliás, a canção antológica, parceria com Vadico, de 1934, foi motivo de recentes remoques verborrágicos e politicamente corretos de Caetano Veloso, o mesmo que se diz melhor que Chico Buarque, Milton Nascimento e Gilberto Gil juntos. Para chocar uma plateia que ainda consegue ou finge se surpreender com as polemicazinhas por ele fabricadas, Caetano descarrega, entre tantos vitupérios, o argumento de que "Feitiço da Vila" é "basicamente uma canção racista", "afirmação da classe média letrada contra os sambas de morro, próximos ao candomblé", principalmente ao exaltar "o feitiço sem farofa, sem véu e sem vintém" e contrapor o bacharel ao bamba. Com didática capciosa, o antigo compositor baiano cantarola e debocha da obra de Noel, do começo ao fim, para um público aparentemente idiotizado..."Tendo o nome de princesa... Isabel? Entenderam? É a princesa Isabel...". Aplausos e risos patéticos, automáticos, obedientes.


Será que o senhor do Recôncavo sabe que, além de consagrar Noel, a Vila é um bairro cujos nomes das ruas são dedicados a datas e a personalidades relacionadas à Abolição da Escravatura? Será que pensa que o morro dos Macacos tem esse nome por maquinação racista? Será que sabe que naquele maciço, no princípio Mata Atlântica, viviam milhares de macaquinhos pretos, macacos-prego e grajaús? Caetano buscava pretexto para atacar o pesquisador José Ramos Tinhorão, inimigo dos tropicalistas, crítico da bossa nova, que condenava a apropriação indébita do samba dos favelados pela elite branca do Rio. E aproveitou o ensejo: "Ele passou anos atacando violentamente Antonio Carlos Jobim, Carlinhos Lyra e outros porque estariam se apropriando indevidamente do samba, a zona sul se apropriando do samba do negro favelado... e do Noel Rosa ele não fala nada." Um festival de baboseiras que Caetano desfila como se anunciasse a novidade antropológica do século. "Essa música sempre me deixou uma tremenda pulga atrás da orelha". Não diga!


Muita gente sabe que Noel Rosa, o meio-bacharel em Medicina - ele cursou três anos da faculdade - vivia em escaramuças, dizem que também forjadas, com Wilson Batista, negro malandro frequentador da Lapa que, afora os Arcos, nada tem a ver com a atual Vila Madalena carioca. Para sacanear o bairrismo de Noel, Wilson Batista fez "Conversa Fiada" e o compositor de Vila Isabel respondeu com o extraordinário "Palpite Infeliz." Tudo em 1935. As altercações duraram mais algumas canções e foram encerradas por uma grosseria histórica de Batista, o samba "Frankenstein da Vila" em alusão à feiúra do poeta, que tivera, ao nascer, o queixo afundado a fórceps. Diz a letra :"Boa impressão nunca se tem/ Quando se encontra um certo alguém/Que até parece um Frankenstein/ Mas como diz o rifão: por uma cara feia perde-se um bom coração/Entre os feios és o primeiro da fila/Todos reconhecem lá na Vila." Noel Rosa nunca reclamou, não respondeu, não revidou. Tal fato, em princípio, não merece comentário e não interessa aos própósitos de Caetano Veloso.


Traças que corroem quaisquer opiniões viris, encarnação de hipocrisias e ressentimentos, os politicamente corretos odeiam intimamente Noel Rosa, posto que genial demais, autêntico demais. E branco. Flanava armado pelo Boulevard 28 de Setembro, acompanhado por um séquito de aspirantes à poesia. Chegou a compor uma música inspirada nas pistolas e revólveres Smith & Wesson, porque as armas, argumentava, garantiam a paz ao igualarem fracotes e valentões. "No século do progresso o revólver teve ingresso pra acabar com a valentia." Compôs mais de 250 músicas inesquecíveis. Evitava conceitos para ele vazios, sem sentido, como o Rio de Janeiro ou o carioca. Alguém conhece letra de canção de Noel que fale disso? Do carioca? Do Rio? Noel Rosa, como Tinhorão, concorde-se ou não com as ideias deles, são pedras no sapato das “panelinhas” e das "conspirações" da Cidade Maravilhosa.


Morto pela tuberculose, aos 26 anos, Noel se encantava com a aldeota e com os bairros que frequentava. Cantava a Vila Isabel, um bairro diferente que devolve o carinho sempre, quando e como pode: um pequeno açougue batizado de Feitiço da Vila, um bar Palpite Infeliz, uma agência bancária Noel Rosa, um grupo de sexagenários Seresteiros de Noel e o Berço de Noel, na Praça Barão de Drummond, antiga Praça Sete, onde, há mais de cem anos, nasceu o protótipo do jogo do bicho. Orgulha-se de ser chamada a "terra de Noel". Um bairro cuja importância Noel Rosa comparou, na cara e na coragem, à dos dois estados economicamente predominantes na federação no começo do século, São Paulo e Minas Gerais. Só que a Vila concreta - nunca o Rio metafísico - concorre com produto muito mais rico e refinado que o café e o leite da República Velha.
Também falava, nos sambas, da Penha, do Estácio, do Salgueiro, da Mangueira, de Oswaldo Cruz, da Matriz (Engenho Novo). Deixava claro que o mundo era aquele em que vivia, amava, bebia, compunha e vomitava sangue. São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel...
Apesar de não falar ou se preocupar com "cariocas espertos, bacanas, sacanas", Noel Rosa, com talento e graça, descrevia em "Conversa de Botequim" (também de 1935) o mais finório e sedutor dos personagens da música popular..."Seu garçom, faça um favor de me trazer depressa/uma boa média que não seja requentada..." Quem seria? Um malandro de Barbacena, não. Muito menos o cafetão da Mooca. Também não seria o teu estimado MV Bill, Caetano. Talvez estaria hoje mais para Martinho da Vila, que não é carioca, mas fluminense da cidade serrana de Duas Barras.


Cláudio Renato

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Quem são vocês? O que querem de nós?




"Mais do que o pensamento do povo que nunca voa
Que nasce com qualquer estrela

Que nada em qualquer lagoa

Que brinca como um cavalo

Garupa por todo caminho

No pingo de qualquer ribeira

No facho de qualquer espinho

No rabo de qualquer cometa

E na maleta figuras do mundo vão levar..."

("Pepitas de Fogo", Zé Ramalho da Paraíba)


1 - CONTATOS IMEDIATOS

O casal Janete Clair e Dias Gomes é responsável pela terrível crise renal que, na primavera de 1973, torturou uma pobre criança de 9 anos em Brás de Pina, subúrbio do Rio. Muitas outras, nação afora, devem ter sofrido semelhante tormento. Depois da extraordinária "Selva de Pedra", vinha a mulher do Dias Gomes com "O Semideus" (estrelada por Tarcísio Meira, Francisco Cuoco e Glória Menezes), quando a novela das oito começava às 20h; o marido da Janete sacava, duas horas mais tarde, "O Bem Amado" (com Paulo Grancindo, Lima Duarte e Emiliano Queiroz). Quem tende a ter pedra nos rins, sabe que não se pode segurar, de jeito e maneira, sob pena de se urinar coca-cola. E quem diz que conseguíamos sair da frente da televisão? A gente se contorcia até não aguentar mais. Era arriscado perder uma cena e, com ela, o delicado sentido da trama.

Tal situação crítica, no nosso caso, só voltaria a se desenvolver, entre outubro de 1976 e fevereiro de 1977, quando Gilberto Braga ousou concorrer com a Ave Maria e adaptou para a TV o romance "Escrava Isaura", de Bernardo Guimarães. As vias urinárias quase entupiram de cálculos renais. Para acompanhar as maldades do senhor Leôncio (Rubens de Falco) e as desventuras da escrava branca (Lucélia Santos), só com uma caneca de chá de quebra-pedras.

Outros tempos, os das obras fechadas, roteiros inéditos ou baseados em textos literários. Os autores, redatores e supervisores respondiam pelo sucesso ou pelo fracasso. Davam a cara a tapa. Ainda não existiam telefonia celular, TV por assinatura, Internet. Ainda não havia se disseminado o conceito de interatividade, que surgira, no começo daquela década, em âmbito acadêmico, no contexto das críticas aos meios e tecnologias de comunicação unidirecionais.

Para azar dos nefrologistas, hoje não é mais assim. Basta assistir a cinco capítulos de uma telenovela - intercalados no começo, no meio e no fim - para, sem necessidade de gravá-los, se perceber como a história começou e adivinhar como vai acabar. Pode-se ir ao banheiro à vontade, passear no parque, viajar para o Quelimane, que, na volta, as coisas na ficção estarão sob controle. E ainda é possível, para o consumidor comum, interferir do meio para o fim: mata-se o vilão, salva-se a heróína, ressuscita-se o personagem morto injustamente, por insensibilidade daqueles que assinam o roteiro (seis, sete, oito parceiros, como compositores de sambas de enredo).

Acredita-se que o Brasil é capaz de escrever uma novela a 50 mihões de mãos. Pouco importa que sejam histórias medíocres ou tão ruins que parte significativa dos criadores abandone a criatura na fase de crescimento. E se a criança morrer de inanição, afinal, a culpa é do público. Quem pariu Mateus, que o embale, certo? Coitado do Shakespeare se vivesse na República Democrática do Abandono e tentasse emprestar o inexcedível talento à teledramaturgia nacional. Certamente, o bardo de Avon não conseguiria sequer a aprovação da sinopse de "Romeu e Julieta" - a popularíssima tragédia do século XVI, a mais bela desventura de amor nunca antes contada na história desse mundo. Imaginem se o brasileiro urbano médio, da Vila Mariana, São Paulo, deixaria um rapaz de 17 anos e uma menina de 14 se matarem no ápice de um mau-fado envolvendo duas poderosas famílias rivais! A lógica, mais de 400 anos comprovam, não é da audiência, mas dos programadores e gestores da comunicação, ávidos por pontinhos preciosos no Ibope. Apostam-se todas as fichas no sucesso fácil da interatividade. Quando é 0800, Lobão, vá lá! O pior é o 0300: a gente ainda paga por isso!


2 - O DESESPERO

Vocês sabem com quem estão falando? Se souberem, pelo amor de Deus, nos digam, nos contem, nos ajudem! Porque não atinamos quem são. E está muito difícil aprender-lhes o idioma. Sabe-se que, desde o poeta romano Juvenal, crítico e autor da fórmula panem et circenses, na passagem do primeiro para o segundo século da Era Cristã, se deliciavam e se alienavam com o pão e o circo oferecidos pelos imperadores. Provavelmente, ainda se alienam, mas jamais poderíamos imaginar que chegariam ao ponto de preferir ao hábito adquirido ver o circo pegar fogo e comer pão torrado só porque agora têm uma merreca a mais para uma margarinazinha rançosa.

O pão que durma, mas o bolo publicitário não pode solar. O show tem que continuar! Mas é muita gente pra comer e até azedar o bolo, como o You Tube, website que permite aos usuários carregarem e compartilharem mais de 30 mil vídeos diariamente em formato digital. Os profissionais de comunicação estamos perdidos, principalmente depois que a tal classe C (o pessoal com renda familiar mensal média de R$ 1.200) se tornou, nos últimos dez anos, protagonista no cenário econômico e principal mandatário dos meios de comunicação aberta. É uma gente que, não faz tanto tempo, quase nada tinha, à exceção do prosaico radinho de pilha e do aparelhozinho de TV de 14 polegadas, que captava, com relativa perfeição, as ondas hertzianas de uma só estação. Mas hoje já possui celular com múltiplas funções, sinais de TV por assinatura (clandestino ou não) e até de Internet, a maior revolução na história da Humanidade desde as Grandes Expedições Marítimas. Na guerra acirrada pela audiência dos telespectadores, leitores, ouvintes, é preciso aplacar a fome dos novos bárbaros, antes que nos devorem com as armas mais arrasadoras de que dispõem: o seletor, o controle remoto, o dial ou o mouse.

Talvez o diabo não seja tão feio, mas a novidade apavora. E o pior é que os hunos da classe C arrastam com eles os visigodos da classe D e até os vândalos da classe E. Os programadores e comunicólogos decidiram se debruçar na palavra mágica, povo. Precisamos ser populares a todo custo. E tome-lhe Big Brother, A Fazenda, Faustão, Gugu, Galvão, Pânico, Samambaia, Mulheres Melancia, Jaca, Moranguinho, um pomar inteiro de "beldades", tudo sob os auspícios da interatividade. Você decide, meu caro!
Verdade é que a panaceia interativa não apresenta os efeitos desejados. A febre não cede, o organismo não reage como gostaríamos. O que essa gente beduína quer para se manter fiel? Façam um seguro contra incêndio e podem sair de casa, viajar, mas mantenham os aparelhos ligados!

O que não percebemos, diante do caleidoscópio que nos parece o gosto popular, é que, com a interatividade, nos tornamos cada vez mais obsoletos e desinteressantes. Menos criativos e ousados. São os números nervosos do Ibope minuto a minuto confundindo, irritando, sobressaltando todo mundo. Cavamos a própria sepultura em vão, enquanto os hunos, os visigodos e os vândalos, com a sabedoria debochada dos deuses gregos, zombam do nosso desespero.

3 - A CONSTATAÇÃO

Praticamente em todas as rodas de jornalistas, publicitários, programadores, comunicólogos e "gestores" de mídia, a questão fundamental hoje é saber o que é popular. Fala-se em bundas, crimes, pegadinhas, pagode, promoções, brindes, direito do consumidor (quase nunca do cidadão), curas de doenças. E o foco é sempre São Paulo, a meca nacional do Instituto Brasileiro de Opinião Pública! A paulistinização da cultura seria muito boa se trouxesse, para todos os lares do Brasil, em tela cheia, o Bexiga, o Adoniran Barbosa, os Demônios da Garoa, o Germano Mathias, o Hervê Cordovil, o Noite Ilustrada e todos aqueles ritmos maravilhosos que animam os botequins da Rua Aurora e fazem de Vinícius de Moraes o túmulo do samba. Porque a São Paulo dos Jardins e da Vila Madalena é tão insossa quanto o Rio da Barra da Tijuca e da Nova Lapa.
O que é ser popular? (sugere um título da coleção Primeiros Passos)

Quem assistia ao projeto Aquarius, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, lembra que o que mais chamava a atenção era o mundo de gente que chegava de trem da Zona Norte e da Baixada Fluminense, as regiões mais pobres do Rio de Janeiro. Em 1979, mais de 200 mil pessoas lotaram a Quinta para, em silencioso respeito durante e delírio esfuziante no final, prestigiarem o maestro Isaac Karabtchevsky, a Orquestra Sinfônica Brasileira e o coral da Bayer, com 180 vozes masculinas. O sucesso de público era tamanho que a então Rede Ferroviária Federal aumentava o número de composições de trens suburbanos para dar vazão àquele contingente que se comportava exemplarmente.

Para os que gostam de samba, uma visita a qualquer roda de subúrbio carioca - sugerimos a Favela da Matriz, no Engenho Novo - demonstra a popularidade de Chico Buarque, Paulinho da Viola, Dorival Caymmi, Ismael Silva e Noel Rosa. Todos são cantados alegremente, embora quem cante e acompanhe, às vezes, nem saiba os nomes dos autores das canções. Simonal regia coro de 30 mil vozes no Maracanazinho. Orlando Silva, cantor das multidões, mal conseguia andar nas ruas. O público da Festa da Penha e as pastoras dos sambas elegiam os sucessos que perduram até hoje. Roberto Carlos, aos 25 anos, reunia o grupo de amigos mais próximos e escrevia cartas fictícias para as emissoras de rádio, com exigências para que suas músicas fossem executadas, artificio de marketing tão ingênuo que chega a ser comovente. A mídia depende muito mais do Roberto Carlos do que o contrário.

Populares são os filmes de Drácula e King Kong, dos mais sensuais da história do cinema. É o gurufim, enterro com festa, como foi, às vésperas do carnaval de 1949, o de Paulo da Portela, que inundou Madureira de gente bebendo e cantando. Os cortejos fúnebres - sentidos e desesperados - também consagram definitivamente, como os de Getúlio e Carmem Miranda.

Seja de um condutor de ônibus, de uma moça distraída, de um vendedor de picolé, o assovio é a mais sublime e consagradora manifestação popular de apreço a uma canção. O dramaturgo Nélson Rodrigues, por ocasião do sucesso de "A Banda" (1966), de Chico Buarque, escreveu um texto precioso em que sustentava que, com o guri de olhos verdes, o povo brasileiro reapreendia a assobiar. Ele mesmo, Nélson, é popularíssimo com os seus Sobrenatural de Almeida e Boca de Ouro e suas damas do lotação, bonitinhas, ordinárias, engraçadinhas.

William Shakespeare, Getúlio Vargas, Padre Cícero, Lampião, Luiz Gonzaga, o Papa, os Beatles, Elvis, Marilyn, Michael, Roberto Carlos, Simonal, Chico Buarque, Isaac Karabitchevsk, Jorge Amado, Nélson Rodrigues, Garrincha, Orlando Silva, Dorival Caymmi, Carmem Miranda, Ismael Silva, Paulo da Portela, Benito de Paula, Belchior, Fagner, Jorge Ben, Papai Noel, Conde Drácula, King Kong e Cinderela são apenas alguns exemplos de extrema popularidade em épocas distintas. São obras fechadas e personalidades abertas ao sucesso e ao fracasso. Autênticas.

O assunto parece não ter fim. Muito pano pra manga. Voltaremos a ele. É quase meia-noite. E amanhã é mais um dia de trabalho, em que se tentará, digna ou covardemente, atrair e manter a sua atenção. Seu Dorival, não desliga, não!
Zé Ramalho, cantor e compositor de "Pepitas de fogo"

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Assim falava Mestre Ziza




Era difícil dormir com um silêncio daquele. E Zizinho passou muitas noites em claro. Ao fim do trágico crepúsculo de 16 de julho de 1950, não se lembrava como chegara em casa. Deve ter caminhado muito. Do Maracanã até a estação das barcas de Niterói, na Praça XV de Novembro, a distância é de pelo menos dez quilômetros. Estava embriagado de tristeza, mas não chorou. Recordava-se apenas do vazio pesado e melancólico da cidade, vez em quando cortado por um tapinha nas costas, uma ou outra voz solidária, que parecia emergir de um pesadelo e lhe aumentava ainda mais o desespero: "Pois é, Ziza, não deu."




Àquela hora, pouco antes das 8 da noite, Zizinho deveria estar feliz da vida, surdo de tantos fogos, bêbado de champanhe, encarapitado em carro oficial com os companheiros, agarrado à Taça Jules Rimet, ovacionado por centena de milhares de pessoas nas ruas e reconhecido como o maior jogador de futebol do planeta. Um gol desenxabido, chute torto do uruguaio Alcides Eduardo Ghigghia, aos 34 minutos do segundo tempo, pôs tudo a perder: a glória e a fortuna dos jogadores; a honra e a autoestima do povo brasileiro. Pensava desordenadamente enquanto esperava sozinho a partida da barca, como um semideus castigado, destituído do poder e transformado, em poucos minutos, em pobre mortal.




Cinquenta anos passados, o fiscal aposentado Thomaz Soares da Silva nos recebeu, na primeira semana de junho de 2000, no apartamento humilde no bairro do Fonseca, em Niterói, na região metropolitana do Rio. Sereno, Zizinho lembrava em detalhes cirúrgicos aquela tragédia, o placar adverso de 2 a 1, que marcou e angustiou toda uma geração. Tentava explicar a anatomia daquela derrota - termo cunhado pelo filósofo gaúcho Paulo Perdigão, autor da obra mais completa sobre o tema. Seu Tomaz morreria dois anos depois, em 8 de fevereiro de 2002, sem conseguir explicação convincente, mas tinha opinião muito direta. "Os uruguaios eram melhores", dizia o mulato sábio e elegante, então com 78 anos, o mais completo jogador brasileiro até o surgimento de Pelé, segundo o próprio Dondinho, pai do rei.




Havia três anos, Zizinho começara a elaborar "As Lições do Mestre Ziza - Evolução Tática do Futebol Brasileiro", em que pretendia en passant, explicar a derrota. "A certeza da vitória era tanta que me fizeram assinar mais de 2 mil fotos montadas com os dizeres Brasil Campeão. Antes da final, a seleção brasileira aplicara no Maracanã, construído especialmente para a Copa, duas goleadas históricas: 7 a 1 na Suécia e 6 a 1 na Espanha, adversários contra os quais o Uruguai penara para não perder. Os brasileiros, em casa, jogavam só pelo empate.




Brasil derrotado diante de 200 mil pessoas no Maracanã, torcedores e cronistas trataram logo de eleger os culpados: o goleiro Barbosa, o zagueiro Juvenal e o meia-esquerda Bigode. Eles não acompanharam Ghiggia, o ponta-direita de 22 anos que chegou a dar sete passos com a bola antes de despachá-la fraca para o canto esquerdo do gol. Houve até a versão de um suposto tapa que Obdúlio teria desferido contra o rosto de Bigode, para extremar ainda mais a humilhação. "Não vi tapa nenhum", desconversava Zizinho.




Para Ziza, um consolo. "Graças a Deus, nunca me crucificaram, mas culparam injustamente meus amigos." Os "proscritos" viveram como Barrabás, carregando o peso de uma culpa imposta que nem o pentacampeonato mundial conseguiria aliviar. Moacir Barbosa morreu dois meses antes da nossa conversa com Zizinho. Ele passou a vida tentando explicar que não falhara no gol de Ghiggia. Bigode exilou-se em Minas. Juvenal, na Bahia. Augusto, capitão do time, não atendia ao telefone. "Quem errou foi Ghiggia, que queria centrar a bola, chutou a grama e enganou o goleiro", explicava Zizinho.


Apesar da derrota, Zizinho foi eleito o melhor jogador da Copa pelos correspondentes estrangeiros. A beleza plástica das jogadas foi comparada à das obras de Da Vinci. Ziza acreditava que o WM, sistema adotado por Flávio Costa, com a variação em diagonal, deixara o time vulnerável. "O 4-3-3, criado em 1945 por Ondino Vieira, do Vasco, é a melhor disposição tática que o Brasil já teve."




Maior ídolo da seleção na época, Zizinho só estreou no terceiro jogo da Copa de 50, contra a Iugoslávia, após o empate aziago de 2 a 2 com a Suíça no Pacaembu. "Eu não tinha a menor condição de jogar; meu joelho estava inchado, deste tamanho". Ziza, que tinha a perna direita mais fina desde 1946, por causa de uma distensão muscular, sofrera nova torção num treino contra o Flamengo. "Entrei machucado, e o Brasil conseguiu vencer por 2 a 0." Ademir marcou os gols. Zizinho também fez um, erradamente anulado. "Jogava no sacrífício, mas nunca tomei injeção no joelho", assegurava.




Mestre Ziza, como era conhecido, gozava da confiança do técnico Flávio Costa, que o lançara no futebol profissional pelo Flamengo em 1939, após vê-lo participar de um treino no lugar do legendário Leônidas da Silva. "Zizinho é o cérebro e o coração de qualquer time", dizia Costa. O jogador não tinha dúvidas de que a política atrapalhara o escrete de 50. "A concentração em São Januário vivia repleta de políticos, como Cristiano Machado, Adhemar de Barros e outros; no dia da final, tivemos que interromper o almoço várias vezes para ouvir promessas." O que mais irritara Zizinho foi o discurso do prefeito do Rio, general Ângelo Mendes de Moraes, que dizia ter construído o maior estádio do mundo e exigia, em troca, a conquista da taça. "Fiquei com raiva; ele não era nosso dono, não tinha direito de fazer o que fez." A estátua do prefeito que o próprio mandou erguer na frente do Maracanã foi derrubada por torcedores ao fim da partida.




Ziza lembrava que entrou tranquilo na final; não olhava o relógio, ouvia apenas o zunido do público. Ele considerava o esquema do Uruguai perfeito para a partida. "Eles jogavam com um beque de espera e outro no avanço, estavam protegidos." Zizinho observou que a final da Copa de 50 solidificou a amizade entre os jogadores das duas seleções. "Obdúlio foi nosso amigo até a morte; jogador extraordinário, homem como poucos." Os adversários passaram a se encontrar com frequência no Rio e em Montevidéo. "Quase nunca falávamos daquele jogo, o Obdúlio detestava lembrar a data conosco; sabia o quanto o Brasil sofreu." Ele jurava que mantinha conversas telepáticas com Obdúlio Varella.




De 1953 a 1957, com a saída de Domingos da Guia, Ziza tornou-se capitão da seleção brasileira, pela qual jogou 53 partidas oficiais e marcou 31 gols. Armador técnico, condenava os jogadores violentos que ocupam a posição. "O guardião não pode fazer falta perto da área." Zizinho se dizia furioso com o que considerava inverdades sobre a Copa de 50. "A história de que Barbosa queimou as balizas do gol de Ghiggia num churrasco em Ramos é ridícula.", sentenciava. "Como poderia ter levado a baliza para casa? Para que queimaria as traves?", indagava Zizinho, que toda semana acendia uma vela em memória do goleiro. Outra história que desmentia é a de que os brasileiros almoçaram sanduíche de queijo no dia da decisão.


A concentração em São Januário era tão tumultuada, segundo Zizinho, que "a gente não tinha concentração nem para fazer balão." Ziza, Nílton Santos e Alfredo eram os baloeiros. "Se saísse da concentração, ninguém ligava; não fosse o empate com os suíços, eu não jogaria." A algazarra da multidão era até um alento. "Ficava mais tenso contra time pequeno; em estádio vazio, ouvem-se os insultos e palavrões."


Ziza sustentava que o Brasil começara a perder a Copa quando Friaça fez 1 a 0, em um minuto e meio do segundo tempo. "Deu um gelo na equipe, que imaginava ter cumprido o dever." O problema, argumentava, era que o Brasil nunca enfrentara uma seleção sul-americana numa final como aquela, o que torna difícil a compreensão da derrota. "Só reagimos depois do segundo gol dos uruguaios." Ziza rebatia a acusação de que faltaram, em campo, os berros de um Obdúlio a favor do Brasil. "Grito não ganha jogo."


Indignado, Zizinho não entendia por que a imprensa deixara de cobrar as falhas do Brasil na derrota contra a França, na Copa de 98. "O Zagallo diz que estava dormindo, quando o Ronaldinho passou mal; o Lídio Toledo falou que, se cortasse o menino da partida, seria morto; o Roberto Carlos declarou que teve que meter o dedo na garganta do Ronaldo.", discorria. "Por que nada é questionado e só falam da derrota de 50? O Brasil já perdeu oito copas depois daquela e a imprensa é cruel conosco; o Bigode só tem três amigos; o Barbosa, maior goleiro da história do Brasil, foi barrado por um molequinho (o goleiro Taffarel) nos preparativos da seleção e morreu só; por que tanta humilhação?"




Para Ziza, a acusação contra Barbosa, Bigode e Juvenal teria sido "uma baixeza". Mas ele não acreditava em racismo. Considerava "outra indignidade" o argumento de que as vitórias nas Copas de 58, 62 e 70 foram frutos da derrota de 50. O Brasil era injusto com todo mundo, na opinião de Zizinho. Ele dizia que na Europa os jogadores eram protegidos e citava o exemplo de Beckenbauer, eleito o melhor beque central de todos os tempos, apesar de ter jogado no meio-campo.




Não se falava bem de Diego Maradona com Ziza. "Ele não foi nem o melhor jogador argentino a jogar na Itália, porque este foi Sívori, que ganhou três títulos pelo Juventus." O melhor argentino de todos, para Ziza, fora Pedernera, que atuou na década de 40. Em compensação, falar mal de Pelé era arranjar um inimigo. "Como gosto daquele menino", suspirava o velho ídolo que se tornara fã. Para ele, Pelé, Leônidas da Silva, Domingos da Guia e Nílton Santos eram os maiores craques brasileiros da história. Também não poupava elogios a Garrincha, mas tinha reservas em relação a Ronaldo (hoje no Corinthians). "Atacante não pode ser o melhor se não cabeceia bem." O goleiro mais difícil que enfrentara fora mesmo Barbosa. "Era frio demais; eu não tinha coragem de colocar a bola quando ele estava no gol."




Ziza contava que deixara de assistir a jogos no Maracanã havia mais de dez anos. "Tenho medo de passar a humilhação de ser barrado." De vez em quando, convidado pela diretoria do São Paulo, comparecia ao Morumbi. Afirmava que torcia pelo Flamengo, o Bangu e o São Paulo - todos os times em que jogou. Na infância, torcera pelo América do Rio, onde fora preterido por insuficiência física. Franzino, 1,68 metro de altura, Zizinha tinha paixão por basquete. "Com a minha altura, poderia ser armador nas quadras." Adorava boxe e se dizia admirado com o panamenho Roberto "Manos de Piedra" Durán. "Nunca vi homem tão valente", exagerava.


Zizinho nasceu em 14 de setembro de 1921, dentro de um clube de futebol. "A tática que o Uruguai usou para nos vencer já conhecia desde os 6 anos", brincava. Filho de Tomaz Silva e dona Eurídes, Ziza morava numa casa em São Gonçalo, sede do Carioca Football Club, que disputava uma vaga na Liga Niteroiense de Futebol. Em 1937, mudou-se para Niterói e transferiu-se para o Byron, Em 1939, treinou no Flamengo e assinou contrato. Foi lançado em 1940. Conquistou o tricampeonato carioca de 1942/43/44. Em 1949, foi campeão sul-americano pela seleção brasileira.




Na Copa de 50, Zizinho fez o gol que considerava o mais bonito da carreira, contra a Espanha; um sem-pulo, depois de um balão em Gonzáles. "A goleada (6 a 1) foi um acidente de futebol." Ziza acabara de se transferir para o Bangu, onde jogou até 1957. Foi chamado nesse ano pelo técnico húngaro Bella Gutman para o São Paulo, levando, aos 36 anos, o clube a ser campeão paulista. Em 1958, recusou-se a embarcar para a Suécia e perdeu a oportunidade de ser campeão do mundo. "Fui convocado quatro dias antes do embarque; não sou moleque e achei que aquilo seria uma injustiça com o Moacir, do Flamengo, que seria cortado." Ziza jurava que não se arrependera. "É questão de atitude."




Na temporada 1961/62, ainda jogou no Audax Italiano, no Chile. Defensor do passe livre, Zizinho teve proposta milionária do Milan, mas não pôde jogar lá. "Quando houve greve de jogadores na Argentina, nos anos 40, fui lá apanhar o estatuto; queria reunir as cabeças daqui, mas ninguém participava."




Ziza adorava passarinhos e alimentava um bando na varanda do apartamento. Era desquitado, tinha duas filhas, torcedoras fanáticas do Fluminense, e dois netos. Gostava de caminhar pelo horto de Niterói e passear no sítio em Marambaia, Itaboraí. Às vezes, andava armado para se prevenir dos assaltos. Adorava os sambas de Walter Alfaiate, João Nogueira, Baianinho e Nélson Sargento. Frequentava a casa de samba e chorinho Candongueiros, em Niterói.




Ex-técnico do Vasco, América, Bangu e Remo, campeão pan-americano com a seleção brasileira no México (1975), Ziza defendia a criatividade. Concordava com o nome de Wanderley Luxemburgo para a seleção, mas considerava absurdas as convocações de jogadores que atuavam na Europa para amistosos do Brasil contra times sem expressão. "Se jogasse lá fora, não viria", afirmava ele, na época entusiasmado com Ronaldinho Gaúcho, França e Alex, que ainda estavam por aqui.




No fim da Copa de 50, Zizinho ganhou 15 dias de folga do Bangu. Não aguentou ficar longe do Maracanã. Voltou a treinar quatro dias depois. Na reestreia, o time goleou o Flamengo por 6 a 0. Ziza tentava muito se convencer de que a final contra os urguaios fora apenas mais um jogo de futebol. Daquela Copa, só guardara uma medalhinha de vice-campeão (que mais parecia uma moedinha de cobre azinhavrado de cinco centavos), recortes de jornais e revistas e um punhado de amigos. "Tive muita insônia, mas, com o tempo, consegui dormir." E sempre que dormia, até o fim da vida, Ziza sonhava com aquele jogo. "Sonho que Brasil contra o Uruguai é uma partida eterna, sem fim, um jogo que nunca acabou e só acabaria quando conseguisse alcançar aquela bola no último minuto e fizesse o gol de empate."
Cláudio Renato
Zizinho - Documento para a História http://www.youtube.com/watch?v=qrRQbTtgEeA

terça-feira, 14 de julho de 2009

Dormidinha, acordadinha...

"Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão

Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim
E você vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Teu bicho-papão

Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei"

Valsa Para uma Menininha
(Vinícius de Moraes e Toquinho)
Bem-aventurados sejam Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Luciano Gallet, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Noel Rosa, Zé Ketti, Chico Buarque, João Gilberto, Tom Jobim, Luiz Vieira, Cartola, Guilherme de Brito, Heitor dos Prazeres, Roberto e Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Francis Hime, Raimundo Fagner, Ednardo, Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Hervê Cordovil, Jane Duboc, Fátima Guedes, Martinho da Vila, Toquinho, Edu Lobo, Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, Catulo da Paixão, Capinan, Gerônimo, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Guilherme Arantes, Egberto Gismonti, os cantadores das estradas vicinais do Nordeste, os pastoreiros do Sul, os caboclos da Amazônia e tantos, tantos outros artistas brasileiros, anônimos ou não, que ajudam a manter o arcabouço do cancioneiro tão singular, fundado na ternura do acalanto.
Abençoados sejam os franceses com sua berceuse e os anglo-saxões, com o lullaby.
Amém aos que entoam a lula, na Suécia; o kalebka, na Polônia: a cantilena na Itália; o wiegezang, na Alemanha; o lulle, na Dinamarca.
Benditos os que compõem as rurrupatas, no Chile, e as canciones de cuña, na Espanha e no resto da América Latina. E também os que sopraram vida ao lullen, na Holanda, e às cantigas de arrolar, em Portugal e na África, bem como ao mucuru, dos indígenas nhengatus.
Salve os compositores de liulkova piesen, na Bulgária; de kolybethnaia piecnh, na Rússia; de cantec de legan, na Romênia, e da komoriut, no Japão.
Aos que afugentam o bicho-papão, a bruxa, a cuca, o tutu marambá, o pavão misterioso, o boi- da-cara-preta e todos os demônios terríveis que povoam o universo imaginário das crianças nos quatro cantos do planeta, este texto é dedicado.
Louvadas sejam, enfim, todas as mães, todas as mulheres que embalam meninas e meninos e cantam cantigas para dormir e despertar gerações após gerações.
"Valsa para uma Menininha" - Toquinho & Vinicius

domingo, 12 de julho de 2009

Brasil, a República Federativa do Abandono




"Deus criou os brancos e os negros, mas o diabo se incumbiu de fazer os mestiços". O pensamento do explorador escocês David Livingstone (1813-1873), além de ilustrar a ideologia racialista dominante no Ocidente do século 19, nos autorizaria a concluir que o Todo Poderoso fez do barro os povos nórdicos, anglo-saxões e pretos africanos. O resto, portanto, teria ficado por conta do diabo, para quem sobraram só as massinhas multicoloridas, aquelas com que as crianças brincam na escola. E o belzebu, então, abusou na mistura de cores, tamanhos e densidades díspares. Montou ateliê no Brasil e, nos últimos 500 anos, tem feito a mais extravagante experiência de miscigenação do mundo.

Livingstone é um herói entre os britânicos. Na trilha aberta pelo médico e missionário, que cruzou a África do oeste para o leste, o Reino Unido colonizou o continente. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que não acreditava em raça pura mas na purificação das raças, cita Livingstone em um trecho de "Aurora" (1881) para exaltar os gregos que "nos oferecem o modelo de uma raça e de uma cultura assim depuradas". E o zoroastra conclui: "devemos esperar que a criação de uma raça e de uma cultura européias puras tenham igualmente êxito um dia." Eles, os brancos, que se entendam. E alemão nenhum fica perguntando o que é ser alemão. Mas, e os mestiços? Estamos condenados a ficar aí, procurando a identidade que nos foi sonegada embaixo da saia de nossas mães, avós, bisavós, tataravós?

Nos trópicos, a sociologia do inferno ganhou corpo e ânimo com o pensador pernambucano Gilberto Freyre, que abdicou dos estudos tradicionais baseados exclusivamente em atas, leis, decretos para, com texto primoroso, tentar desvendar quem somos na seiva, no sêmen e na saliva. Muitos séculos antes, o diabo acendera o fogo sexual dos pretos, brancos e índios que geraram mamelucos, cafuzos, mulatos, a brava gente brasileira, que até hoje não se sabe se fadada ao fracasso ou à redenção. É por isso que, além do autor de "Casa Grande & Senzala", tantos outros, como Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro tentaram explicar o Brasil. São os exegetas do diabo.

Conhecemos Darcy Ribeiro pessoalmente, no começo da década de 80 e da improvável campanha de Leonel Brizola para o governo do Estado do Rio de Janeiro, que começou com um fusquinha emprestado, virou epidemia nas ruas, acabou vitoriosa e resultou na edificação, por todo o canto, de centenas de Cieps (escolas públicas em turno único).
Darcy adorava freqüentar a praia de Copacabana com uma namorada da época, bem mais jovem, muito bonita. Sentava na areia, reunia as pessoas em torno, e falava pelos cotovelos. Mente quem diz entender o que Darcy dizia. Ele sempre parecia ter cheirado dúzias de carreiras de cocaína de manhã, porque atropelava as palavras, abandonava um raciocínio no meio para só rebuscá-lo muito depois. O que nos seduzia no Darcy era o entusiasmo com as próprias idéias. E os textos originais, porque Darcy gostava de escrever e o fazia muito bem, motivo pelo qual, provavelmente, é tão discriminado no cenário acadêmico nacional. Vá explicar a sociologia da panelinha e a antropologia da inveja!

Darcy Ribeiro é autor de oito livros sobre etnologia, outros oito sobre educação, nove ensaios, quatro romances (com destaque para a obra-prima "Maíra") e sete tratados antropológicos. Chefe da casa civil do governo João Goulart, criou a Universidade de Brasília. Estava disposto a sacrificar a vida para evitar o golpe militar, um voto vencido. No exílio, ajudou a espalhar universidades pela América Latina e a África. De volta ao Brasil, criou os Cieps (uma concepção revolucionária para o ensino público no país) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense, referência nacional nos estudos geológicos e outros estratégicos para a exploração do petróleo e do gás natural. Em 1995, dois anos antes de morrer, concluiu o clássico "O Povo Brasileiro". Doente, fugiu do hospital e se isolou em Maricá, na região dos Lagos, no Rio, para poder acabar de escrever a sua obra mais importante.

Em "O Povo Brasileiro", Darcy desenvolveu o conceito de ninguendade, ao sustentar que o Brasil é uma terra de ninguéns, de órfãos que, devido a vicissitudes históricas, perderam a identidade original. Não podemos, neste contexto, deixar de observar uma semelhança com a história de Lúcifer (Luz e Fé), o anjo preferido do Senhor que caiu e se perdeu. Tratava-se, voltando a Darcy, de uma nação de pretos desafricanizados, de brancos deseuropeizados e de índios destribalizados. E o caboclo, desprezando a mãe índia e desprezado pelo pai branco, abriu cruelmente as picadas para a interiorização do país. Nenhum momento histórico, nenhum movimento imigratório, nada fica fora da obra monumental do intelectual mineiro. Uns mais, outros menos, japoneses, alemães, italianos, polacos e portugueses tardios se perderam, ou se envolveram, no labirinto da Terra de Ninguém, do Império dos Órfãos, da República Federativa do Abandono.
E a esta altura, finalmente, chegamos a Roberto Carlos, que comemora 50 anos na profissão de intérprete e tradutor desse abandono tão radical. Quando Roberto canta, o Brasil canta com ele. Ele diz exatamente o que o nosso coração derramado, piegas, maltratado e abandonado quer dizer ou quer que alguém diga em seu lugar. Roberto Carlos não é cafona. Cafonas somos todos nós. Somos nós, que choramos com a propaganda do Gelol e acreditamos em Papai Noel, sim. Cafonas graças a deus ou a satanás. Custamos a acreditar que algum brasileiro sincero não tenha algum dia chorado ao ouvir "Detalhes", "Meu pequeno Cachoeiro", "Eu te amo" e tantas outras canções do capixaba. Roberto é carismático e avassalador, capaz de romper barreiras étnicas, sociais, financeiras, culturais, porque rico, pobre, criança, adulto, velho, preto, branco, pardo, índio, todos os habitantes desta terra de ninguém, somos carentes e queremos expressar o abandono. Quem é brasileiro e não gosta de Roberto Carlos, odeia a si mesmo. Recomendamos a esses infelizes um terapeuta do cinismo, um sociólogo da panelinha, um antropólogo da inveja ou um exegeta do mau-caratismo.

Cláudio Renato
Roberto Carlos e a Jovem Guarda
Darcy Ribeiro, intérprete do Brasil

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Carta aberta a um destinatário fechado




Senhor Geraldo Pedrosa de Araújo Dias:


Tínhamos pouco mais de quatro anos, quando Geraldo Vandré, personagem que o senhor diz ter inventado, deixou o Brasil e menos de nove, quando voltou, para aqui se exilar, depois de vagar pela América do Sul, a Europa e a África. Portanto, mal nos entendíamos como gente, imagine se saberíamos quem era o senhor.

Filhos caçulas, só ouvíamos sobre o tal Vandré quando os irmãos mais velhos deixavam escapar um motejo político ou, do banheiro, a plenos pulmões, entoavam aquela famosa guarânia de dois acordes que o enxotou daqui.

Quem nos interessava na época? Pelé e Garrincha, claro. Gérson, o canhotinha de ouro, também. Jogávamos botão o dia inteiro e assistíamos à tarde ao "Capitão Asa", na TV Tupi. Também ao Ênio, ao Beto, ao Gugu e ao Garibaldo, de "Vila Sésamo" (programa infantil importado dos Estados Unidos e transmitido, com adaptação nacional, pelas redes Globo e Cultura). Os irmãos abusavam, porque julgavam não existir pecado em Brás de Pina (o bairro de classe baixa no Rio, onde fomos criados), motivo por que, talvez, o guerilheiro Carlos Lamarca tenha se escondido lá por um tempo. Mas essa é outra história, timidamente revelada na biografia "O Capitão da Guerrilha", de Emiliano José e Oldack Miranda.
Só em 1979, finalmente liberada da censura, "Caminhando" ou "Pra não dizer que não falei das flores" entrou na nossa vida, pelas ondas da rádio Nacional FM e pelo compacto de rótulo preto (relíquia de um saudoso irmão, nosso padrinho). Levávamos aquele manifesto gravado para as festas, aproveitando os intervalos dos Bee Gees e dos "Embalos de sábado à noite" para pedirmos ao discotecário que tocasse o "hino da abertura". Não podíamos imaginar que a revolução na MPB da época, o LP "Realce", de Gilberto Gil, estava sendo gestada.
Comoveu-nos a gravação que o senhor fizera de "Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, o mais belo registro da clássica canção nordestina que já ouvíramos. Vibrávamos com a letra, a melodia e o arranjo de "Disparada". E com o ritmo, marcado pelas pancadas intermitentes em uma queixada de burro. "Prepare o seu coração/pras coisas que eu vou contar/eu venho lá do sertão/eu venho lá do sertão/eu venho lá do sertão/e posso não lhe agradar..."

Infelizmente não poderemos derramar nesta carta o lirismo daqueles tempos, porque, por meio desta, confessamos a decepção e impaciência com a sua pessoa.

Gostamos muito do documentário "Cantador" produzido pela jornalista paulistana Paula Quintas. Gostou também, ou vai ter a caradura de dizer que não viu? Será que o senhor não sentiu a mínima emoção ao ouvir o Jair Rodrigues cantar a capella , dolentemente, "Disparada", na abertura da reportagem? Aos 73 anos, será que não tem remorsos de malbaratar a própria história diante de uma geração renovada que vive - e tem o direito a viver - em um país democrático?


Pois então: a Paula, de 22 anos, e a equipe de estudantes de jornalismo da Universidade Morumbi Anhembi, todos mais ou menos da mesma idade, transformaram o trabalho de conclusão de curso em excelente curta-metragem, de 26 minutos, no momento oportuno em que AI-5 completava 40 anos. Conversamos com a moça e soubemos da odisséia da equipe para gravar a reportagem, muito bem produzida e editada, sob a supervisão da professora Maria Eleutério. Todas as entrevistas ali estão conduzidas com apuro profissional.
Paula ficou, de janeiro a outubro do ano passado, praticamente todos os dias, fazendo campana em frente ao seu prédio, na Rua Martins Fontes, no centro velho de São Paulo. Ela nos contou ainda que, certo dia, conseguiu repassar-lhe um bilhete com o número do telefone e o senhor retornou, negando-lhe a entrevista. Orientador do pré-projeto, o professor Valdir Batista propôs ao grupo de estudantes que mudasse o tema, enquanto havia tempo. "Deus precisa gostar muito de vocês para conseguirem falar com ele."


A muito custo, Paula e Carlos Larios, também de 22 anos, conseguiram - com uma câmera MiniDVD (praticamente sem bateria) e a ajuda providencial de um amigo seu - gravar cinco minutos de conversa no restaurante do Novotel. Menos de três minutos foram aproveitados. Só valeu pelas imagens. Tanto esforço! Pois é, pra quê?


Jair Rodrigues revela que precisou mandá-lo à merda para que lhe tratasse com respeito e parasse de duvidar da seriedade dele no dia da apresentação de "Disparada" - a mais épica de suas canções - no II Festival da Música Popular Brasileira da TV Record , em 1966. Só porque o crioulo inzoneiro gargalhava, ao cantar o tradicional samba "Tristeza" (de Haroldo Lobo e Nilton Souza)? Só por causa do "deixa-que-diga-que-pense-que-fale?", como lembra o bem-humorado Hilton Accioly, ex-integrante do Trio Marayá, responsável pela escolha do intérprete? Logo o Jair Rodrigues que defendeu tão emocionadamente a sua composição em parceria com Theo de Barros? Justamente o Jair, que considera "Disparada" um marco na vida dele e na própria música popular brasileira?


Júlio Medaglia, maestro e ex-jurado de festivais, conta que o Chico Buarque de Hollanda pediu ao júri do festival, por intermédio do empresário Paulo Machado de Carvalho, então dono da Record, para dividir o prêmio máximo do certame com o senhor. Chico não aceitaria a vitória isolada de "A Banda." E o prêmio, de fato, foi fatiado entre os dois. Como foi? Precisava disso? Claro que o Chico Buarque tinha uma dívida com o senhor, que defendera, no ano anterior, "Sonho de Carnaval", na primeira apresentação de uma música do compositor carioca em festivais.


José Borges Campos, seu empresário na época, garante que o senhor voltou ao Brasil, em 1973, sob as condições rigorosas dos militares, uma das quais a de não se apresentar mais em território nacional. E o senhor, já tão arredio, concedeu entrevistas, alegando que, a partir de então, só comporia canções de amor e só voltaria a cantar aqui "quando houvesse poder judiciário que apreciasse este crime denominado República Federativa do Brasil". O que é isso? O senhor se convertera ao monarquismo? O empresário conta, ainda, que o senhor logo se tornou amigo do comandante da FAB e se internou, literalmente, em um quartel. Como assim? Vocação castrense? O senhor ficou incomunicável em uma caserna?


Vítor Nuzzi, jornalista, atesta que o senhor, nos anos 60, era um homem poderoso na mídia, o maior salário da televisão e do incipiente show business brasileiro. Quem diria? Mais do que a Hebe Camargo, a Elis Regina e o Simonal?


Solano Ribeiro, produtor do III Festival Internacional da Canção põe lenha na fogueira e diz que a TV Globo foi pressionada a não deixar "Caminhando" vencer a disputa, embora Nuzzi garanta que já entrevistara oito dos nove jurados vivos e ninguém confirmara a história. Ribeiro apóia-se na suposta confirmação feita pelo executivo de TV Walter Clark, que está morto. O fato é que Chico Buarque, Tom Jobim, Cinara e Cybele, autores e intérpretes de "Sabiá", a canção vencedora do festival, tiveram que suportar, estoicamente, dez minutos de vaias no Maracanãzinho lotado (perto de 30 mil pessoas) naquela madrugada de setembro de 1968.


Muitas são as questões acerca da sua biografia, senhor Geraldo, algumas levantadas no curto documentário elaborado pelos estudantes de São Paulo. Mas o senhor parece certos congressistas, que odeiam jornalistas, experientes ou jovens. E as pessoas acabam perdendo o interesse. O que seria das terras do benvirá, com um povo sem informação?


O que ouviu a equipe de universitários, quando finalmente conseguiu se aproximar do senhor, um ermitão fabricado que, vive distribuindo, como o evangelho, a letra de "Fabiana" - a canção que fez em homenagem à FAB? O que ouviram os estudantes? Uma frase pífia dita, enquanto acendia um cigarro. "O fogo queima; a televisão não sabe, ninguém sabe, mas o fogo queima, viu?" Sim, e daí? Paula Quintas nos confessou o sentimento de "agonia", mas, carne de pescoço, queria concluir o trabalho, "porque era (ou parecia) impossível." E o Geraldo Vandré? Morreu e esqueceram de enterrar? Poderia ser cremado. Porque, afinal, "o fogo queima."

PS - Em homenagem ao cantador e compositor paraibano de palavras afiadas e melodias fortes, que o senhor Geraldo um dia foi, deixaremos aqui o endereço eletrônico - no You Tube - em que se poderá relembrar Jair Rodrigues interpretando "Disparada", com uma garra impressionante, no festival da Record, de 1966. Em compensação, também deixamos no quintal desta morada uma das últimas aparições públicas do senhor, no ano passado, em um barzinho no centro de São Paulo, onde foi prestigiar um dos poucos amigos, o policial militar e crooner Samuel Lago. O Sargento Lago, no documentário, também presta depoimento (elogioso, naturalmente) a um personagem que quis deixar de existir. E no barzinho as pessoas continuam bebendo, fumando, conversando. Ignoram o trovador. Elas são as culpadas? O que o senhor fez da própria história?
Jair Rodrigues em "Disparada" http://www.youtube.com/watch?v=AkghEx3g6wI
Geraldo Vandré no show do Sargento Lago http://www.youtube.com/watch?v=519eyCVEliY