segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Choros, chorinhos e chorões em 5 minutos

Pixinguinha (1897-1973), a alma do choro
É do desenhista, artista plástico e designer William Figueiredo Côgo, de 34 anos, a idéia supimpa de contar em um filme de curta metragem - com traços firmes, singelos e muito colorido - uma breve história do choro, único gênero musical genuinamente carioca. São cinco minutos de emoção, beleza, talento e simplicidade. Côgo conseguiu fazer um desenho animado surpreendentemente original: calçadas em pés de moleque, bolas de gude, pipas coloridas, sino de igreja, o luar alto, crianças pobres (provavelmente filhas de estivadores, operários, lavadeiras e quituteiras), mulata, pandeiro, viola, saxofone e muita alegria. Os cenários são pintados a mão. Um choro recorrente. Sem palavras.

Para realizar Alma carioca, um choro de menino, Côgo se inspirou nos traços do caricaturista José Carlos de Brito e Cunha, o J.Carlos (1884-1950). Foi a melhor oportunidade que o diretor e designer, também carioca, formado pela Escola de Belas Artes da UFRJ, encontrou para homenagear Pixinguinha, João da Bahiana e Donga - a santíssima trindade do chorinho - pais fundadores de Os Oito Batutas, o primeiro grupo a levar a música popular brasileira para o exterior. Foram para a Europa em janeiro de 1922 para uma curta apresentação. Acabaram ficando por lá meio ano.

O filmete retrata a história de um menino, morador da zona portuária do Rio, que, nos primeiros anos do século passado, se encanta com os chorinhos e os chorões originais da Pedra do Sal, na época da Tia Ciata e outras baianas fundamentais. A inspiração nos traços de J. Carlos é coerente. O cartunista, chargista e ilustrador retratava o Rio de Janeiro dos anos 1920, período em que o choro - gênero criado pelo flautista Joaquim Calado no fim do século 19 - deixava os salões e começava a conquistar definitivamente as ruas da cidade.


sábado, 12 de dezembro de 2009

Ferreira Gullar: "Será arte?"

Ferreira Gullar, o bruxo maranhense de Copacabana
A Fonte, de Marcel Duchamp: o urinol mais caro do mundo

O francês naturalizado americano Marcel Duchamp (1887-1968) é um dos mais cultuados artistas plásticos dos últimos cem anos. Chegou a ser chamado de gênio visionário e comparado, em importância, ao italiano Giotto di Boldoni (1267-1337), que introduziu na pintura as noções de perspectiva e tridimensionalidade, pilares de sustentação da escola renascentista de Michelangelo, Da Vinci e Rembrandt. Para o poeta, ensaísta e crítico maranhense Ferreira Gullar, tal valorização (paparicação) da obra (?) de Duchamp é uma tremenda idiotice e um dos maiores esbulhos que, perpetrado no século 20, ainda vigora em academias, museus e bienais pelo Brasil e mundo afora.

Os defensores de Duchamp alegam que a revolução promovida pelo artista francês se dá pelo fato de ele não ter se contentado em estimular apenas a visão, a admiração das imagens captadas pelos olhos, mas a troca intelectual do admirador com suas peças. Ao tirar um objeto comum do contexto usual e elevá-lo à categoria de arte, Duchamp anunciava ao mundo que a habilidade manual do artista já não bastava para definir uma obra. As peças prontas, os ready made, inauguravam, destarte, a concepção de vanguarda contemporânea, da arte conceitual.

Duchamp angariou notoriedade mundial quando, com a assinatura R.Mutti, inscreveu em um concurso de arte nos Estados Unidos a peça A Fonte - um urinol comum, branco e esmaltado, comprado, em 1917, em uma loja de material de construção em Nova York. A peça foi recusada pelo júri do concurso por não ter nenhuma intervenção artística, mas, imediatamente, apareceram críticos em busca de chifres na cabeça do cavalo. Eles enxergaram no urinol contornos femininos e recorriam a explicações supostamente psicanalíticas para legitimá-lo como obra de arte: era preciso se ter em mente um membro masculino lançando urina sobre as formas femininas. Ou mesmo sêmen, em caso de masturbação.

Aos 79 anos, Ferreira Gullar é considerado o maior poeta vivo do Brasil. Pelo menos, é o que tem a fisionomia mais expressiva. Ele acredita que a vanguarda se esgotou, ao buscar apenas a novidade e negar a permanência dos valores estéticos. A tal vanguarda conceitual contemporânea tornou-se o movimento mais arrogantemente conservador e hipócrita, principalmente nas artes plásticas. No caso de Duchamp, ele explica: "na olaria, aquilo era um urinol fabricado em linha de montagem. Na casa de material de construção, era um urinol para ser vendido a um bar ou a um restaurante. No bar, não deixaria de ser urinol, onde os homens se aliviariam. Para ganhar o estatuto de obra de arte, depende de um museu. Que vanguarda é essa?" Ou seja: segundo o poeta, é a instituição que confere a legitimação de obra de arte. "Ou a obra é de vanguarda ou é institucional, as duas coisas é um contrassenso."

Há exatamente 50 anos, Ferreira Gullar redigiu o Manifesto Neoconcreto, que marcou o rompimento do grupo do Rio, encabeçado por ele, Lygia Pape e Mário Pedrosa, com os concretistas de São Paulo. Por causa da efeméride, Gullar tem sido muito procurado para explicar por que rompeu com o movimento. Autor de um livro intitulado Argumentação contra a morte da arte, o poeta diz que não podia mais tolerar o esquematismo matemático e racionalismo dogmático impostos pelos paulistas. Jamais foi perdoado pelos irmãos Augusto e Haroldo Campos e por Décio Pignatari, os corifeus do programa concretista. O didatismo de Gullar é de contundência e lucidez impressionantes. "O concretismo deveria se chamar abstratismo, porque, para se aproximar do concreto é necessário um somatório de atributos. Quando se escreve a palavra "gato", se está tratando de uma abstração. Mas quando se escreve do "gato preto do seu José que mora na última casa da rua tal, no quarteirão tal, aí vamos nos aproximando do concreto."

A obra poética de Ferreira Gullar é indestrutível. O Poema Sujo, concebido em 1976 durante o exílio em Buenos Aires e trazido ao Brasil, clandestinamente e gravado em fita cassete por Vinícius de Moraes, é uma das obras mais estudadas da literatura brasileira atualmente. Sob a angústia das ditaduras militares, Gullar decidiu "escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre". Gullar é autor de 21 livros de poesia - 15 individuais e seis antologias -, dois de contos, 14 ensaios, uma peça teatral (Um rubi no umbigo, 1979) e uma biografia (Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde, 1996). Produziu textos originais e adaptações para a televisão, o teatro e o cinema. Em 2002, fez a melhor tradução para o português de Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. É autor do belíssimo poema Traduzir-se, musicado e gravado por Raimundo Fagner em disco antológico de 1981, lançado em toda a Europa e na América Latina, um marco na música popular brasileira.

Já da obra de Marcel Duchamp, não se pode dizer exatamente o mesmo. Em 6 de janeiro de 2006, um francês de 77 anos invadiu o Centro Pompidou, em Paris, e atacou a marteladas A Fonte - o urinol mais caro do mundo. O vândalo foi detido. Alegou que o ataque com o martelo seria uma perfomance artística da qual o próprio Duchamp se orgulharia. A peça, que há três anos já estava avaliada em 3 milhões de euros (quase R$ 9 milhões), sofreu escoriações leves e, na opinião de marchands europeus, ficou ainda mais valorizada depois do episódio.

Cláudio Renato



quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Buarques de Hollanda, apenas uma família brasileira - Capítulo Final

Os Buarques de Hollanda na casa da Rua Buri
Maria Amélia Buarque de Hollanda
Quando João Gilberto gravou o álbum Chega de Saudade, marco inaugural da Bossa Nova, o menino Chico Buarque de Hollanda, então com 15 anos, não deu a mínima. Só queria saber de música clássica. O Brasil, campeão mundial de futebol com Pelé e Garrincha, a gloriosa pátria em chuteiras de Nélson Rodrigues, também parecia não sensibilizar mais o guri, que, subitamente, até parou de brincar com os botões de plástico, as tampinhas de relógio, as fichas de lotação (jogadores) e as caixinhas de fósforos (goleiros). Naquele 1959, enquanto as vedetes Carmem Verônica e Norma Tamar juntavam multidões na areia em frente ao Copacabana Palace, no Rio, para vê-las desfilar de biquini, Chico evitava olhar para meninas e repreendia as irmãs por andarem de short pela casa.

Maria Amélia reparou as atitudes estranhas do filho e decidiu intervir. Ela descobriu que o garoto estava sendo aliciado no tradicional colégio Santa Cruz, de padres canadenses, em São Paulo, por um grupo ultramontano, cujos integrantes se telefonavam para marcar reuniões secretas. Deste núcleo de extrema direita, surgiriam os corifeus da Tradição, Família e Propriedade (TFP), organização que, cinco anos mais tarde, apoiaria a ditadura militar. "Era um professor de História, depois expulso da escola; claro que não foi uma boa experiência", contou-nos o próprio Chico Buarque. "Mamãe tinha primos envolvidos nesse movimento religioso à direita de tudo, que, na França, era representado pelo arcebispo Marcel Lèfreve e originou no Brasil a TFP. Ela adivinhou o perigo naquilo tudo."

Chico Buarque contou como os pais ficaram indignados. "Eles trataram de me exilar num colégio interno em Cataguases, Minas Gerais. Foi uma boa ideia, gostei de lá." Depois do exílio, segundo as irmãs, Chico voltou a ser o "sem-vergonha" de antes. "Voltei a ser o campeão dos castigos", lembra o compositor. Ele e Maria do Carmo, a Pii, quinta filha - que, hoje, aos 63 anos, é fotógrafa - eram os mais bagunceiros dos irmãos. É impressionante a facilidade com que Pii, atualmente, ainda se recorda das escalações (titulares e reservas) dos times do Rio e de São Paulo nas décadas de 50 e 60. Eles chegaram a criar um time de futebol familiar, o CFFC, Carmo e Francisco Futebol Clube, muito antes de Chico Buarque fundar o Polytheama, com sede e "estádio" próprios em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, uniforme e até um hino feito especialmente pelo compositor: "Polytheama/Polytheama/O povo clama por você..."

Fundamental para a consecução de Raízes do Brasil, a obra-prima de Sérgio Buarque de Hollanda, a intervenção de Memélia também foi decisiva para que Chico Buarque se tornasse um dos maiores gênios vivos do país. Memélia, na verdade, considerava o músico popular menor e acha mais elegante que o filho se apresente como escritor, mas respeitou e cultivou as amizades e o gosto musical de Sérgio. O historiador chegava a chamar o sambista Ismael Silva de Santo Ismael. Sem a influência dos ultramontanos, Chico aproximou-se para sempre dos artífices de Chega de Saudade, a começar pelo poeta Vinicius de Moraes, um dos mais frequentes amigos de Sérgio. João Gilberto casaria com Miúcha e se tornaria cunhado. Tom Jobim, parceiro em Sabiá e tantas outras canções memoráveis, viria a ser o ídolo, a inspiração maior e um dos melhores amigos.

O futebol e o samba passaram definitivamente a fazer parte do cotidiano de Chico Buarque, tricolor e mangueirense (como a mãe), entusiasta de todos os grandes craques e bambas, inventor de um jogo por ele batizado de Ludopédio e de um samba-enredo intitulado Vai Passar. Era Memélia quem, aficionada pelo Fluminense desde a época do legendário goal keeper Marcos Carneiro de Mendonça (1914-1922), apontava orgulhosa para o estádio do Maracanã, durante as viagens na ponte ferroviária Rio-São Paulo. "Olha lá o maior do mundo." Na estação seguinte, levava os filhos à janela do trem para mostrar o morro e cantar o samba-exaltação. "Mangueira, teu cenário é uma beleza/Que a natureza criou..."

Ironicamente, Chico Buarque se tornaria o principal alvo da censura imposta pelo regime militar e das agressões perpetradas por pessoas ligadas aos ultramontanos, à TFP e ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que, em 1968, invadiram o Teatro Galpão, em São Paulo, para espancar os atores e destruir o cenário de Roda Viva, peça escrita por ele e dirigida por José Celso Martinez. As canções foram tão perseguidas pela censura, que ele foi obrigado a criar os heterônimos Julinho da Adelaide e Leonel Paiva.

Enquanto todos esses acontecimentos se guardavam para o futuro, Chico contribuía muito para o embranquecimento dos cabelos de Maria Amélia. Adolescente, dava calote em táxis, atravessando, às carreiras, o bar Riviera, na Consolação, na época com saída para a Rua Buri. Maria Amélia ficou furiosa quando o retrato de Francisco, aos 17 anos, foi estampado na primeira página do jornal Última Hora, com tarja no olhos e as iniciais F.B.H. Os pais estavam em Ouro Preto (MG) na época. "Realmente, mamãe não achou nada simpático eu ter sido preso fazendo ligação direta", conta Chico. O rapaz ficou em prisão domiciliar, impedido de sair sozinho à noite, até completar 18 anos.

Maria Amélia influenciava até no sotaque dos filhos. Ela tinha birras com o marido, paulista ferrenho. Resistia a tudo o que fosse de São Paulo. "Mamãe é carioquíssima, e houve certa disputa herdada por nós quatro mais velhos, os do Rio, e os mais novos, Maria do Carmo, Ana Maria e Maria Christina, que nasceram em São Paulo", conta Miúcha. "O Sérgio tinha essa mania de ser paulista, adorava São Paulo", confirma Maria Amélia, que, ultimamente, tem suavizado o tom. "A família da minha mãe era paulista, morei mais de 25 anos em São Paulo e tenho três filhas nascidas lá." A paulista Ana denuncia o patrulhamento. "Se escapasse um r ou um s paulistanos, mamãe caía de pau. Ainda é assim com os netos de São Paulo." No comando da casa, Maria Amélia, que adorava se bronzear na praia, impunha, segundo a filha, a norma de que "chique" era ser carioca, "bonito" era o Rio de Janeiro. "O pior é que era mesmo, porque as coisas boas, como férias, festas e feriados, a gente passava lá", reconhece Baía.

Oito meses depois da morte de Sérgio (ocorrida em 24 de abril de 1982), Maria Amélia se mudou para o Rio. É no terraço do edifício Alcazár, em Copacabana, que a família costuma se reunir para a queima de fogos no fim do ano. Memélia adorava caminhar pelo calçadão da orla. Vez em quando, vai a festivais de cinema e exposições de artes plásticas. Sem canais por assinaturas, assiste aos programas de entrevistas e noticiários na TV aberta. "Cinema é uma grande paixão; vi duas vezes seguidas e recomendo Assédio, de Bertolucci". Memélia é apaixonada também pela Itália, onde morou dois anos quando Sérgio lá lecionou. "Antes de La Dolce Vita explodir no Brasil, minha mãe já era fã de Fellini", confirma Álvaro, o terceiro filho, 67 anos.

Rigorosa na criação dos filhos e netos, Memélia se desmancha com os bisnetos. É um elo de gerações. "Eu nunca vi família andar como nós, em bando. Certo dia, fomos nove com a mamãe assistir ao filme O Jantar, de Ettore Scola", conta Ana. Maria Amélia se desdobra para reunir os sete filhos. Convida todos para passear, almoçar, jantar e visitar. A mesma alegria dos passatempos, Maria Amélia dedicou à reflexão. Sempre foi leitora dos clássicos estrangeiros (Marcel Proust, James Joyce e Leon Tolstói) e nacionais (Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Pedro Nava). Gosta muito dos intelectuais Antonio Candido, José Mindlin e Moacyr Werneck de Castro. "Ela e papai adoravam Guerra e Paz, de Tolstói: costumavam reler o romance juntos e comentavam seriíssimos a respeito dos personagens", lembra Ana. Após ser submetida a duas operações de catarata, Maria Amélia passou a usar óculos e bengala, mas nunca deixou de ler.

Os Buarques de Hollanda sabiam quão importante era o ambiente cultural para o futuro. Apesar de católica, Maria Amélia acompanhou o marido quando da visita do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre e da escritora feminista Simone de Beauvior ao Brasil, na década de 60. Os filósofos, que defendiam o aborto e o divórcio, provocavam a ira dos católicos. Memélia provava pertencer à ala progressista da Igreja. Na despedida do casal, fez questão de levar os filhos ao aeroporto de Congonhas.

Quando na casa da rua Buri havia saraus, com a presença de Vinícius e Caymmi - que caprichava em Acalanto, a canção preferida de Sérgio -, a mãe convocava: "Venham todos", para a alegria das crianças escondidas no vão da escada. Sérgio incluía os filhos nas farras. "Mamãe cuidava de tudo para que fôssemos bem educados e para que papai trabalhasse sossegado", conta Ana. "Professor, ele recebia pouco; a universidade atrasava; às vezes, não dava para comer carne. Mamãe providenciava arroz, feijão, chuchu."

Enquanto Maria Amélia administrava a despesa e a educação da família, Sérgio ignorava até o período escolar das crianças. Ele também não dirigia automóvel, mais uma tarefa a cargo da mulher. "Ela é a própria Amélia", afirma o professor e crítico literário Antônio Candido, de 91 anos, que conheceu o casal no fim de 1943 durante um almoço oferecido pelo editor José de Barros Martins no restaurante Caverna de Santo Antônio, em São Paulo. Para Candido, "Maria Amélia é excelente exemplo de coerência e energia serena, tanto nas atitudes excepcionais quanto na vida cotidiana." Ele diz sempre ter admirado "a sabedoria com que ela coordenou os cuidados exigidos por uma família numerosa, a hospitalidade da casa cheia de amigos e a atividade intelectual de colaboradora do Sérgio." Candido conta ainda que "há muitos anos, quando nem todas as estradas eram fáceis, ela dirigiu daqui até Assunção, no Paraguai, um fusca no qual foi com Sérgio fazer pesquisas em arquivos." Para o professor, "não há pessoa mais digna de admiração do que Maria Amélia, em quem coexistem a força das convicções, a coragem alegre, a elegância moral e a solidariedade discreta."

Ainda chegamos a conversar com Mário Lago sobre Memélia antes da morte do ator e compositor (em 30 de maio de 2002, aos 91 anos). "Qual o problema de ser Amélia, dona Maria Amélia? A nossa canção não foi para a senhora, mas para mulheres tão maravilhosas quanto, o que é cada vez mais raro", provocou. As filhas entregam que, além de conservadora no comportamento, Memélia era um tanto machista. Em 1964, Chico participou de um show com as irmãs Ana e Maria do Carmo no colégio paulistano Rio Branco, o Primeira Audição. Um mês depois, a TV Record quis repetir a apresentação. "Mamãe teve um ataque", lembra Ana. "Por ela, o Chico podia cantar; nós, não." Como a emissora exigia a presença das meninas, Chico teve de convencer a mãe. A partir daí, elas foram proibidas até de ver o programa da TV em casa. Miúcha brigou com a mãe ao saber que Chico, sete anos mais moço, tinha a chave de casa e ela, não. Os namoros eram vigiados e a orientação sexual não entrava na conversa. "As meninas tinham que andar juntas e o ideal da mamãe é que todas casassem virgem", revela Ana.

No começo do casamento de Chico com Marieta Severo, a sogra via a nora com certa desconfiança. João Gilberto, no primeiro momento, não foi aceito. Depois, conquistou Memélia. Era casado quando começou o relacionamento com Miúcha. A mãe, que soube do romance pelo jornal, enviou um telegrama para a Europa, exigindo o desmentido de João. Com ela, a porca torcia o rabo. Já com o pai, valia quase tudo. Moderadamente, os meninos podiam fumar maconha na frente de Sérgio, que, de farra, até dava "umas puxadas", embora gostasse mesmo de uísque. Dificilmente ele se aborrecia com as traquinagens dos filhos.

Quando finalizávamos o primeiro artigo sobre Maria Amélia Buarque de Hollanda, em outubro de 2000, a assistente social Ruth Buarque, então com 26 anos e colaboradora do Comunidade Solidária, telefonou para a redação da Gazeta Mercantil, em São Paulo. "Você está fazendo uma reportagem sobre a minha avó, tenho adoração por ela e queria dar um depoimento." Ruth, filha de Ana de Hollanda, contara que fizera com Memélia a viagem mais emocionante da vida. "Fomos a Paris, eu, minha mãe, o Chico, a Silvia, a Pii e a Ana, filha da Cristina. Vovó nos mostrou cada detalhe de cada museu, as esculturas de Rodin, O Beijo e a Porta do Inferno". Ruth disse que, paulista, não conseguiria falar chiado para agradar a avó. "O problema é que eu falo entendeeendo, apartameeento, meu..." Na defesa de tese na PUC, a avó ligou para Ruth desejando boa sorte e se desculpando porque não poderia ir a São Paulo. "Quando cheguei na faculdade, vi a avó e vivi a maior emoção". Mais tarde, Ruth enviou um e-mail à redação. "Ih, esqueci de dizer que a Memélia faz a melhor mousse de chocolate do mundo!"


Cláudio Renato, em texto baseado em apurações jornalísticas para as reportagens "A construção do clã" (no Caderno Fim de Semana, Gazeta Mercantil, em 2000), "Dossiê Sérgio Buarque de Hollanda" (na Revista Bravo, em 2002) e "Os 60 anos de Chico Buarque" (para os telejornais da TV Globo, em 2004).

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Buarques de Hollanda, os meninos da Rua Buri - Segundo Capítulo

A família Buarque de Hollanda, na Rua Buri, no aniversário de 72 anos de Sérgio Buarque
Maria Amélia, filhas e netas

O historiador Sérgio Buarque de Hollanda odiava ser interrompido enquanto lia os jornais. E foi em um desses momentos de concentração que, certa vez, um ladrão resolveu invadir a casa da família na Rua Buri 35, no Pacaembu, São Paulo. Ao ouvir o barulho importuno, Sérgio, sem tirar os olhos das notícias, vociferou improprérios. O ladrão, assustado, entrou no quarto da babá Benedita. Só deu para afanar um aparelho de televisão. Passou por um dos meninos, que o cumprimentou, pensando ser o técnico. Eis que no portão surgiu a super Maria Amélia, que, com um saco de compras, gritou, pôs o homem para correr e salvou a televisão. Ainda absorto nas leituras, Sérgio resmungou, xingou e ficou muito tempo sem compreender o que ocorrera. Quem conta o episódio, às gargalhadas, é a primogênita dos Buarques de Hollanda, Heloísa Helena, a Miúcha, 72 anos.

"Papai trabalhava com a porta aberta e enlouquecia quando a casa era invadida pela molecada que queria jogar pingue-pongue e pebolim (totó)", conta a mãe de Bebel Gilberto. O casarão da Rua Buri era uma zona franca. Houve ali festas que reuniram 500 pessoas e até comércio ambulante na porta. Vinícius de Moraes participava de todos os rega-bofes.

Mulher altiva, que recusa ajuda até para carregar pacotes de compra em supermercados, a centenária Maria Amélia jamais abandanou a fé religiosa, nem mesmo pelo marido, irreverente e ateu. Miúcha, aliás, adora falar sobre a união aparentemente improvável de Memélia e Papioto. "Papai era um intelectual boêmio; e mamãe, católica, de uma família mineira tradicional de Ubá." Eles se conheceram no carnaval de 1934, embalados pelos sambas e marchinhas de Noel Rosa e Braguinha, em frente à sede do Jockey Club do Rio. Foram apresentados por Afonso Arinos de Mello Franco, primo-irmão de Maria Amélia e amigo de Sérgio. Para Miúcha, "não fosse a admiração e a organização de minha mãe, papai não teria escrito Raízes do Brasil." A própria Memélia confirma que, "para bancar a noiva boazinha, datilografava o que Sérgio escrevia à mão."

A casa de 600 metros quadrados na Rua Buri, construída em 1929, foi a primeira que a família conseguiu comprar (a prestações). Sérgio e Maria Amélia recebiam nela os amigos Vinícius de Moraes, Antônio Candido, Caio Prado Jr, Manuel Bandeira, Prudente de Moraes Neto, Carybé, Jorge Amado, Paulo Vanzolini, Florestan Fernandes, Clóvis Graciano, Dorival Caymmi, Fernando Sabino e tantos outros que aportavam em São Paulo. Miúcha conta que Sérgio cantava samba em latim e tango em alemão, tocava berrante e sanfona, vestia-se de Nero em bailes a fantasia e, numa ocasião, andou com uma galinha verde sob o braço para sacanear os integralistas. Ana de Hollanda, a Baía, de 61 anos, sexta filha, pede, entretanto, cuidado com a imaginação fértil da irmã mais velha. "Papai detestava pegar em bichos."

Sérgio conheceu no Café Nice, no Rio, Pixinguinha, Donga, Aracy de Almeida e Ismael Silva. "No tempo em que João Gilberto era casado com Miúcha, fiz visitas cordiais à família, em São Paulo, e me encantei com a simplicidade, o despojamento e a ausência de vaidade em dona Maria Amélia", contou-nos Dorival Caymmi, em outubro de 2000. Na época da Rua Buri, Memélia já se notabilizava pelos dotes culinários. O doce de coco "amarelo Van Gogh" foi imortalizado por Fernando Sabino na crônica "Um pouco de doçura." Outras especialidades na cozinha eram vatapá e bobó de camarão.

O biólogo e compositor Paulo Vanzolini, 85 anos, lembra dos saraus na casa do Serjão, quando Maria Amélia, ao pé do piano, cantava músicas de Ismael Silva, e participava de todas as conversas sobre o destino do Brasil. "Ela não é uma pessoa de esquerda, apenas uma mulher de bom caráter e uma das pessoas de quem mais gosto na vida."

O casarão dos Buarques de Hollanda em São Paulo foi de festa na era de ouro, mas, também, de resistência, nos anos de chumbo. Nos períodos negros da ditadura, a casa da rua Buri se transformava em "aparelho." Sérgio pedira aposentadoria da universidade, a USP, em solidaridade a Florestan Fernandes e outros professores afastados. O telefone da família foi grampeado. Maria Améia conhecia as senhas. "Fulano no hospital" significava prisão de alguém. Nos confrontos de estudantes com a polícia na rua Maria Antônia, em São Paulo, levava comida para a meninada. E ajudava os proscritos, como o deputado cassado Márcio Moreira Alves, cujo discurso anódino contra os militares fora, em 1968, o pretexto para a decretação do AI-5, que restringiria todas as liberdades constitucionais dos cidadãos brasileiros.

Maria Amélia é uma católica esclarecida, que frequenta a igreja São Paulo Apóstolo, em Copacabana, bairro carioca onde mora. A simpatia contagia a vizinhança. Alfredo Jacinto Mello, o Alfredinho, de 66 anos, proprietário do botequim Bip Bip, é fã de carteirinha. "Memélia é a mãe e a avó que todos gostaríamos de ter; uma ativista da esquerda católica que jamais se entrega à depressão", conta Alfredo, que frequenta a mesma igreja da mãe de Chico. Além do Bip Bip, Maria Amélia, sempre que pode, faz uma propaganda subliminar do Carioca da Gema, uma das principais casas de espetáculo da Lapa, no centro do Rio, administrada por um dos sobrinhos, Carlos Thiago Cesário Alvim.

Filha do desembargador mineiro Francisco de Cesário Alvim e da paulista Maria do Carmo da Costa Carvalho, Maria Amélia nasceu em 25 de janeiro de 1910 - no mesmo ano de Noel Rosa, da passagem do cometa Harley e da Revolta da Chibata, na qual marinheiros se amotinaram contra a semiescravidão imposta pelos oficiais da Armada aos subalternos e quase bombardearam toda a cidade. Ela veio à luz no elegante bairro do Cosme Velho, no Rio. É a mais velha de dez irmãos. O avô paterno, José de Cesário Alvim, foi o primeiro presidente de Minas Gerais e o materno, Álvaro de Carvalho, senador e ministro. Quando Memélia tinha 6 anos, a família mudou-se para Copacabana. A menina estudou no Sacré Couer de Marie. Depois, fez curso de enfermagem. Aprendeu a falar francês, italiano e inglês. Para a educação dos filhos, exigiu colégios excelentes: o Des Oiseaux, o Santa Cruz e o Caetano de Campos.

Socialista de corpo e alma, Maria Amélia procura distribuir o afeto equitativamente por cada filho, neto, bisneto ou amigo. "Sucesso é palavra de consumo externo e o importante é o amor que sentimos por cada um deles, não que saiam ou deixem de sair na imprensa. Até porque o amor de verdade dificilmente é publicado nas páginas dos jornais."

No próximo e último capítulo: a carioquice radical de Memélia, que, praticamente, obrigava os filhos e netos a "falar chiado"; o depoimento de Mário Lago, de Antônio Candido e de todos os filhos; a reação da matriarca ao envolvimento de Chico Buarque com grupos de extrema direita que originariam a TFP e à prisão dele, por furto de carro em São Paulo, antes de se tornar o compositor mais competente e querido do Brasil.

Cláudio Renato, em texto baseado em apurações jornalísticas para as reportagens "A construção do clã" (no Caderno Fim de Semana, Gazeta Mercantil, em 2000), "Dossiê Sérgio Buarque de Hollanda" (na Revista Bravo, em 2002) e "Os 60 anos de Chico Buarque" (para os telejornais da TV Globo, em 2004).



sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Os Buarques de Hollanda: cem anos de construção - Primeiro Capítulo

Os Buarques de Hollanda, no casarão da Rua Buri, em São Paulo.
Sérgio, ao berrante: o primeiro Buarque de Hollanda

O segredo está guardado, delicadamente, no sétimo andar do Edifício Alcazar, construído na década de 1930, na pequenina rua Almirante Gonçalves 4, em Copacabana, ao lado do botequim Bip Bip. Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Hollanda completará 100 anos em 25 de janeiro de 2010. Ela garantiu, com temperamento estoico e simplicidade franciscana, a união e a prosperidade intelectual da família Buarque de Hollanda, que, aliás, nem Buarque de Hollanda seria, se não fosse por um capricho do sogro, Cristóvão, que decidiu encurtar e modificar o sobrenome Paes Barreto Hollanda Cavalcante Buarque de Gusmão. O pernambucano Cristóvão Buarque de Hollanda é pai do paulista Sérgio Buarque de Hollanda e avô do carioca Chico Buarque de Hollanda. Na família, o único sobrenome registrado com apenas uma letra l é o da irmã caçula de Chico, Maria Christina, por um equívoco cartorário.



Austera e sensível, Maria Amélia trabalhou à moda antiga para perpetuar a família. Ajudou nas pesquisas e datilografou os originais do clássico Raízes do Brasil (1936). Viajava de trem com os filhos, na ponte ferroviária Rio-São Paulo, ensinava-lhes a cantar sambas, frequentava com eles o Maracanã e até participava de coros em gravações. Para quem não sabe, a voz de Maria Amélia está ao fundo de O Meu Guri, no registro de Cristina Buarque, anterior ao disco Almanaque, de Chico Buarque (1981). Raras vezes precisou pôr os pés fora de casa para receber o carinho incondicional dos sete filhos, 14 netos, 13 bisnetos, intelectuais, compositores, poetas e políticos. Em comum com a musa do saudoso amigo Mario Lago, a Amélia em questão desdenha luxo e riqueza. É um ser alegremente monástico em cujo templo se aceitam, eventualmente, uma cachacinha, um chope, e manifestações entusiasmadas a favor da Mangueira e do Fluminense.


É aconselhável, no entanto, que não se chame a viúva do historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Hollanda (1902-1982) de dona Amélia. É gafe imperdoável. O telefone emudece, a conversa murcha, ela fica uma fera. Não se sabe bem a razão. Pelo o que diz a todos, é a sonoridade do nome que a incomoda. Ela jura que tal ojeriza nada tem a ver com Ai, que saudades da Amélia, a canção composta em 1941 por Mário Lago e Ataulfo Alves para Amélia dos Santos Ferreira, morta pela pneumonia, aos 91 anos, em 27 de julho de 2001. Amélia, a musa do clássico, fora empregada da cantora Aracy de Almeida (1914-1988).


Quando faz reservas em restaurantes, a mãe de Chico Buarque é lacônica. Ela pede "uma mesa para a dona Maria" ou, no máximo, "para dona Maria Buarque." Gosta mesmo é do apelido Memélia, inventado pela neta Bebel Gilberto, filha da primogênita Heloísa Maria, a Miúcha, com o cantor e compositor João Gilberto.


Bebel, nascida em Nova York, há 43 anos, viveu pedaço da infância - dos 5 aos 8 anos - com os avós na rua Buri 35, no Pacaembu, em São Paulo, no casarão em frente ao qual está hoje a praça Raízes do Brasil. Na época, os pais de Bebel viajavam pelos Estados Unidos e o México. Jamais os netos trataram Maria Amélia e Sérgio como "vovó" e "vovô." Foi Bebel, xodó da casa, quem também criou o apelido familiar de Sérgio: Papioto, corruptela de "papai outro", como ele preferia ser chamado por todos os netos.


Às vésperas do centenário de Sérgio Buarque de Hollanda, em 2002, telefonamos para Chico Buarque. Queríamos falar sobre a mãe dele, a cara-metade do autor de Visões do Paraíso. "Mamãe sabe? Você contou pra ela? Ih, ela não vai gostar nem um pouco dessa história," advertiu. Era bem possível. Dona Maria Amélia, metro e meio de altura, não tem a menor vaidade, nunca pintou o cabelo e só faz concessão a um batonzinho. Hesitante, Maria Amélia concordou em falar conosco, depois de muita insistência de uma das filhas, Ana de Hollanda, hoje vice-presidente do Museu da Imagem e do Som (MIS). "Acho meio ridículo uma mulher da minha idade ficar se exibindo", dizia, sem se deixar fotografar. "Milhões de mulheres anônimas, domésticas, escravas e faveladas contribuíram para construir o Brasil. Sou de uma geração em que as mulheres trabalhavam silenciosamente, mais recolhidas."


Aos 65 anos, Chico Buarque é o quarto filho da família. "Minha mãe sempre foi preocupada com o lado prático da casa, a disciplina, a educação dos filhos e netos; pelo meu pai, relaxadão, não rolava nada." O maior compositor do Brasil garantia que, por Maria Amélia, poderia abandonar a música popular para ser arquiteto imediatamente. "Minha mãe nunca gostou dessa história de palco, de artista.", contou. "Apesar de adorar música e shows como os de Milton Nascimento e Ney Matogrosso, ela queria outra vida para a gente", contou, à época (2002), a filha caçula e também cantora Christina, hoje com 59 anos, salva certa vez por Maria Amélia de ser esmagada por Vinícius de Moraes, que, mais pra lá do que pra cá, quase sentou sobre o bebê no sofá da casa do Pacaembu. A lenda se encarregou de divulgar Chico como o protagonista da história.


Chico Buarque abandonou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP no terceiro ano, em 1965. "Mamãe foi à faculdade trancar a matrícula e está com a chave até hoje", brincava. Naquele ano, Chico lançaria o compacto de estreia, com Pedro Pedreiro e Sonho de Carnaval, primeira canção do compositor inscrita em um festival, o da TV Excelsior, defendida e depois gravada por Geraldo Vandré. "Minha mãe pensa que, a qualquer momento, posso voltar para a Arquitetura e, às vezes, imagina que eu seja arquiteto. Quando visita meu apartamento, no Leblon, pergunta se o projeto é meu e eu digo que sim", divertia-se. "Com certeza, exigiria que me tornasse um Niemeyer ou um Frank Ghery, nada menos."


Em meados da década de 90, o casarão dos Buarques de Hollanda, atrás do estádio do Pacaembu - endereço de efervescência cultural do Brasil, de 1956 a 1982 - foi posto à venda pelo valor de US$ 400 mil. Fernando Moraes, secretário de cultura no governo Quércia (1987-1990), tentara transformar a casa em centro cultural, o que não aconteceu. A família vendeu a biblioteca de Sérgio (cerca de 10 mil livros) para a Unicamp. Os documentos do historiador foram doados para a Universidade de Campinas. "Gostaríamos que a casa virasse um centro dirigido a professores e alunos de História do Brasil", sugeria Chico. "Seria muito mais interessante manter ali uma instituição cultural." O compositor temia "a demolição da casa para se construir no lugar um consultório ou coisa do gênero." Antes de se tornar presidente da República, Luiz Ignácio Lula da Silva, amigo de Maria Amélia e de Sérgio Buarque, nos garantiu que conversaria com a então prefeita Marta Suplicy a respeito. "Quantos Sérgios Buarques surgiram neste século?", perguntava Lula.

O casarão da Rua Buri, onde o cineasta e acadêmico Nélson Pereira dos Santos reuniu toda a família para filmar Raízes do Brasil, em 6 de abril de 2002, foi tombado, sobrevive com as mesmas características, mas é alvo de uma disputa judicial, que começou quando Emérita Aparecida, ex-babá dos filhos de Sérgio Buarque de Hollanda Filho, o Sergito, alegou que tinha direitos e não deixaria a casa. A prefeitura de São Paulo desapropriou o casarão e, no começo de 2007, depositou R$ 470 mil em juízo, em nome da família Buarque de Hollanda, que jamais deixou de pagar IPTU. Na época da decisão de adquirir o terreno, a prefeita ainda era Marta Suplicy e o secretário de Cultura, Marco Aurélio Garcia, atual assessor da Presidência da República para assuntos internacionais. A ideia é construir ali a Discoteca Sérgio Buarque de Hollanda e para lá transferir o acervo da Discoteca Pública Oneyda Alvarenga, idealizada pelo escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945).

O Partido dos Trabalhadores é a paixão política de Maria Amélia. Quando vem ao Rio, o presidente Lula arruma um intervalo na agenda para visitar a velha amiga no Edifício Alcazar, embora Ana de Hollanda garanta que isso só ocorreu duas vezes em 27 anos de amizade. Sérgio Buarque de Hollanda assinou a ficha número 2 do PT em 1980. A número 1 é do crítico de arte pernambucano Mário Pedrosa (1900-1981). "Minha mãe sempre acompanhou o velho, mas não é muito entusiasmada com o PT do Rio", dizia Chico Buarque. "Meu marido atendeu a um convite do Mário Pedrosa e foi ao Colégio Sion para fundar o PT", lembra Maria Amélia. Para eleições proporcionais, sempre votou em amigos como Chico Alencar ou Elomar Coelho. Quando o partido do coração fazia algo que não concordava, como, por exemplo, rejeitar a candidatura de Vladimir Palmeira, ela votava em Leonel Brizola. Quando a esquerda não tem chances, nem sai de casa em dia de eleição.

Maria Amélia foi a primeira pessoa a contribuir com a campanha presidencial de Lula em 1989, com um cheque da pensão de viúva a que tem direito. Quem nos contou a história, em 2002, foi o próprio Lula. Ele disse que, no aniversário de 90 anos de Maria Amélia, tentou, com o escritor Frei Betto e o crítico literário Antônio Candido, fazer-lhe uma surpresa. Ela preferiu jantar com os filhos no Jardim Botânico, no Rio. "Um metalúrgico de São Bernardo filiar-se ao PT é quase obrigação, mas uma pessoa como dona Maria Amélia só faz isso por solidariedade.", dizia Lula. O ex-petista Chico Alencar, de 60 anos, amigo de Maria Amélia e atualmente deputado federal pelo PSOL, testemunha tamanha boa vontade. "Memélia, ativíssima, comparecia à sala alugada pelo PT no Rio para conversar com eleitores e envelopar cartas."

No próximo capítulo: o começo do namoro de Maria Amélia com Sérgio Buarque de Hollanda, no carnaval de 1934, ao som de Noel Rosa e Braguinha, e os depoimentos da primogênita Miúcha e de amigos, como Dorival Caymmi e Paulo Vanzollini.

Cláudio Renato, em texto baseado em apurações jornalísticas para as reportagens "A construção do clã" (no Caderno Fim de Semana, Gazeta Mercantil, em 2000), "Dossiê Sérgio Buarque de Hollanda" (na Revista Bravo, em 2002) e "Os 60 anos de Chico Buarque" (para os telejornais da TV Globo, em 2004).

Vídeo em que Maria Amélia Buarque de Hollanda fala ao cineasta Nélson Pereira dos Santos de "Raízes do Brasil" e da atuação dela como datilógrafa dos originais de um dos maiores clássicos da sociologia no País.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A misteriosa estrela de Augusto Damineli

Eta Carinae, uma densa névoa de mistérios
Damineli: um capira de rio e um cientista renomado

Como um profeta atormentado, o astrônomo Augusto Damineli Neto refugiara-se, na segunda metade dos anos 90, nas Montanhas Rochosas, no Colorado, região central dos Estados Unidos. Angústias e incertezas volviam-lhe o pensamento para as margens do rio Jacutinga, em Ibiporã, norte do Paraná, onde, menino, com os pais e dez irmãos, trabalhara como lavrador e boia-fria. A profecia deveria se cumprir entre dezembro de 1997 e março de 1998 para tornar o tabaréu um dos mais respeitados cientistas do planeta.

Doze telescópios de solo - em diferentes países do Hemisfério Sul - e quatro satélites no espaço apontavam para a estrela Eta Carinae, a mais luminosa da Via Láctea, numa operação que custou, à época, US$ 1 milhão. Os aparelhos estavam assestados contra o mesmo lugar no céu para pôr à prova a teoria de Augusto Damineli. O cientista sustentava que um fenômeno cíclico de baixa excitação ("apagão") em determinados elementos químicos da estrela ocorreria a cada 5,52 anos. Era o argumento de que precisava para consolidar a teoria, a mais aceita após 157 anos de observação e estudos, de que a Eta Carinae, coberta de densa nuvem de poeira estelar, seria na verdade um sistema binário: duas estrelas com somatório de massas 200 vezes maior que a do Sol. "Dinossauros não dançam frevo", simplificava Damineli, para quem uma única estrela de tal dimensão não poderia funcionar como um relógio.

Com os estudos sobre Carinae, Damineli desafiava as teorias dos mais conceituados astrônomos do mundo, entre eles o maior rival, o americano Kris Davidson, principal observador da estrela desde a década de 60. Davidson foi o primeiro a comprovar a hipótese de que Carinae está se despedaçando e morrendo. O problema é que sempre sustentou se tratar de uma estrela isolada (single star). "Ele é o marido anterior da Carinae", brincava Damineli, a quem conhecemos, no ano 2000, no Instituto de Astronomia e Geofísica da USP, em São Paulo, onde atua como livre docente. Hoje, aos 62 anos, o cientista é representante do Brasil na International Astronomic Union (IAU), para as comemorações de 2009, o Ano Internacional da Astronomia.

Naquele fim de outono, no Colorado, Damineli esgrimia contra si dúvidas hamletianas. Tinha convicção de que seus cálculos estavam certos, mas físicos prestigiados faziam pouco. "Sou um cientista renomado ou um caipira de rio?", perguntava-se. Até então, Damineli se identificara com o trotskismo e o antiamericanismo, mas a metáfora que lhe ocorria se relacionava ao mercado financeiro. "Sentia-me como um corretor que aconselhara clientes importantes a um negócio de alto risco, e teria a reputação arruinada se perdessem tudo."

A agonia de Damineli só acabou em 12 de dezembro de 1997, quando Carinae começou a sofrer o "apagão", cujo ápice ocorreria no Réveillon. Foi uma dolorosa experiência em que o brasileiro teve de vencer preconceitos de origem. Em junho de 1992, ele observou, por acaso, que a estrela sofrera um "apagão" em comprimentos de ondas específicos relacionados a elementos químicos só excitados com fontes muito energéticas, como o hélio e o argônio. Não podia ser eclipse, porque outros elementos da estrela ficavam "acesos." "Avisei os meus colegas no exterior para que os satélites fossem apontados, mas ninguém levou a sério." Seis meses depois, alguns se convenceram de que o fenômeno poderia ter ocorrido. "Estudei os relatórios dos cem anos anteriores e concluí, a partir de cinco eventos ocorridos com elementos semelhantes, que o fenômeno se repetiria a cada 2.014 dias, com margem de erro de 2%", contava Damineli. "Claro que em alguns relatos não havia registro, mas o fato de um marinheiro ter deixado de descrever um dia no diário não significa que a jornada não tenha se sucedido". Assim, previu o "apagão" de 1997.

A partir de 1996, um satélite da Nasa, o RX-TE, começou a acompanhar Carinae pelo menos duas vezes por semana. "Esta estrela é única na galáxia, um dinossauro vivo, com 2,5 milhões de anos, que acabou de nascer e está morrendo", explicava. "Todas as irmãs de Carinae morreram há 12, 13 bilhões de anos." O astrônomo intuía que, para dispor de um mecanismo regular, a estrela teria de ser duas, na verdade. A teoria do eclipse envolvendo duas estrelas caía por terra, quando só o hélio "apagava" e o hidrogênio não, por exemplo. "As duas estrelas mais corpulentas da galáxia produziriam ventos que, ao se chocarem, esquentariam o conjunto de gases em temperatura calculada em 80 milhões de graus Kelvin."

Era preciso comprovar esta tese. Damineli e o amigo Peter Conti pediram à Nasa pare medir, em raio X, o plasma (gases ionizados) da estrela. O resultado aproximou-se do esperado. Em fevereiro de 2000, o satélite Chandra remediu a temperatura do plasma: 60 milhões de graus Kelvin. "A partir da teoria física consistente, houve um boom de telescópios apontados para a estrela." No espaço, além do RX-TE, os satélites Rosat, Hubble e Beppo foram mobilizados.
Embora invisível e estudada indiretamente, através da nuvem de poeira que a circunda, Carinae é reconhecida como a mais luminosa estrela da galáxia. Luminosidade, segundo a astronomia, pouco tem a ver com o brilho. É a potência intrínseca de luz de um corpo celeste. Já o brilho se refere à aparência e tem relação direta com a distância entre o observador e o observado. Daminelli exemplificava. "Se a Carinae for aproximada à mesma distância do Sol para a Terra, terá o brilho equivalente a 6 milhões de vezes o do astro rei."

Apesar de sustentar que Carinae são duas estrelas, Damineli concorda em tratá-la no singular. "A estrela maior comanda o movimento do sistema." Ele começou a se interessar por Carinae em 1989, após o curso de pós-doutorado no Instituto de Astrofísica Espacial de Roma, ao testar a técnica de observação astronômica com infravermelho na faixa de 1 mícron, que penetraria na poeira. Queria induzir a estrela a um "strip-tease."

Carinae já expeliu metade da matéria original. Poderá explodir em 10 mil anos. Ou, quem sabe, morrer à míngua. "Em caso de explosão, o Hemisfério Sul queimaria todo por causa da impulsão de raios gama", afirmava Damineli. No princípio denominada Eta Argos, por causa da constelação a que pertence, Carinae foi observada com atenção, pela primeira vez, em 1826, curiosamente em São Paulo, pelo astrônomo inglês Willian J. Burchell. Ele ficou intrigado com a oscilação do brilho daquela estrela e enviou uma carta a respeito ao maior astrônomo da época, o também inglês John Herschell, que montara um poderoso telescópio na África do Sul. Em 1843, a estrela sofreu uma erupção e atingiu tanto brilho que ficou visível à luz do dia. Parecia Sírius, a estrela mais brilhante do céu, a apenas 10 anos-luz da Terra. Carinae fica a 7,5 mil anos-luz, o que tornava misteriosa a intensidade do brilho.

Exatamente 20 anos depois da erupção de Carinae, os Damineli, lavradores italianos de Brescia, chegavam a Santa Catarina. Os imigrantes confrontaram-se com os botocudos. "Foi um massacre: os italianos e alemães passaram fogo nos índios", conta Damineli, o neto. Enquanto os "bugres" tinham o sangue derramado no sul do Brasil, os astrônomos europeus tentavam explicar os sinais de Carinae como explosão de uma supernova, mas, por esta hipótese, ela já teria morrido. "O mistério de Eta Carinae é que, após a detonação de 1843, ela não morreu; ao contrário, continou brilhando, o que motivou artigos nos últimos 150 anos", dizia Damineli. Carinae começou a se esconder sob uma nuvem de poeira cujo material daria para constituir 500 vezes a quantidade de planetas do sistema solar.

O pai de Damineli, o lavrador e carpinteiro Salvatino, adorava caça e migrou para o norte do Paraná, perto da cidade de Ibiporã, hoje com 48 mil habitantes. Da tapera de tábuas, coberta de telhas e folhas de palmito e com chão batido, no sítio à beira de um rio e de uma floresta, os meninos viam muitas estrelas. No casebre dos Damineli, nem banheiro havia. Os caminhos eram guiados por lamparinas. Lampião de querosene, só aos domingos. Para atravessar as pinguelas, o clarão da lua os orientava. "Quis estudar quando descobri que seria a maneira de me livrar da vida obtusa da enxada", contou Damineli, que, até os 10 anos, desconhecia as letras e os números.

Na ocasião em que o pequeno Damineli se divertia ao ver o pai conversando com plantas e animais, o americano Kris Davidson, futuro rival, já se dedicava a Carinae. Ele descartava que ela fosse um pulsar, como se supunha. Ao realizar exames químicos dos gases que a envolviam, descobriu uma grande quantidade de nitrogênio que estava sendo jogada para fora da estrela. O mistério de Carinae, no entando, permanecia. "Para tal potência de luz, era preciso que a estrela tivesse pelo menos 160 vezes a massa do Sol." Até o astrofísico inglês Fred Hoyle - oponente da teoria da explosão originária do universo e quem, ironicamente, a batizou de big bang - estudou Carinae.

Aos 4 anos, Damineli dava comida para as galinhas; aos 5, apascentava os bezerros; aos 6, buscava água e ganhava a primeira enxada. A partir dos 7, tinha altura ideal para colher algodão, arrancar feijão e fazer limpeza sob os pés de café. "Minha mãe embrulhava os bebês num paninho e os deixava no mato, enquanto capinava pés de milho." Na época da colheita do café, os seis meninos e cinco meninas tornavam-se boias-frias em sítios vizinhos ou distantes, aonde iam de caminhão. "Comecei a frequentar uma escola estadual a quatro quilômetros de subida, que a gente vencia de pés descalços; só na cidade calçávamos as alparcatas, mas lá não aprendi nada." Nos primeiros anos, Damineli queria ser caminhoneiro e ficar perto da cidade, onde havia escola, rádio, banheiro, luz elétrica e geladeira. "A gente falava caipira, 'nós vai' e 'nós fumo'; o falar português correto só na escola.", conta. "Em casa, se alguém conjugasse o verbo corretamente, todo mundo explodia de rir."

Lá em cima, a misteriosa Carinae esperava o menino que se especializaria no estudo de estrelas de grandes massas. Em Ibiporã, Damineli conseguiu matricular-se no colégio Maria Imaculada. Para pagar o material escolar, levava leite, melancia e peixe para as freiras. "Tenho o maior respeito pelo trabalho no campo e acho que os sem-terra estão certos quando exigem destino social para terras improdutivas.", dizia. "Mas a agricultura no mundo já produz mais de 4 quilos de alimentos diários por habitante; se a riqueza for bem distribuída, nos sobra tempo para aprender." Com o pensamento precocemente iluminista, a vida no campo ainda era mais dura para Damineli. Os irmãos o acusavam de frouxo. "Lá, eu não era ninguém."

Quem descobriu pendores intelectuais em Damineli foi uma certa irmã Benta, que o aconselhou a estudar para ser padre, formação que o menino desconhecia. "Jurava que nasciam homens, mulheres e seres intermediários, de barba e saiote: os padres." Aos 12 anos, foi cursar seminário em Assis, interior de São Paulo. Lá aprendeu humanidades, latim e idiomais neolatinos. "Só muito mais tarde passei a lidar com inglês." Damineli ficou no seminário até os 18 anos. Gostava de arte sacra e canto gregoriano, mas considerava a história bíblica da criação "conto de gibi." Aos 13, conheceu Manoel, seminarista mais velho que lhe contou sobre a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin (1809-1882).

A exigência de provas científicas para os fenômenos e a repressão sexual no seminário afastaram Damineli da religião. "Decidi negar Deus depois de três anos de tormenta", conta. "Rompi com a Igreja Católica na época, por causa da exploração da culpa." Quando conversamos, Damineli se dizia indiferente à ideia de Deus. "Sou amigo do padre George Coyne (então diretor do observatório do Vaticano) e falamos muito em ciência, sem estabelecer vínculos com religião."

No seminário, as idéias políticas pareciam não existir e a filosofia moderna estacionara nos conceitos de Immanuel Kant (1724-1804). Damineli decidiu voltar para a casa da mãe, em Ibiporã. Foi caixeiro viajante e professor particular. Em 1968, aos 21 anos, embalado por Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, e Disparada, de Geraldo Vandré, foi para São Paulo. Trabalhou como apontador de empreiteira, por um salário mínimo. Completou o colegial na Mooca, num período movimentado por greves. Morou em pensões na capital paulista. Obteve uma bolsa de estudos no cursinho Equipe, onde pagava 10% do salário que recebia.

Damineli trabalhou em almoxarifados e escritórios, em horários que lhe permitissem estudar. Dos primeiros anos em São Paulo, recorda-se dos embates entre estudantes e policiais na rua Maria Antônia. Admirava nos jovens da cidade a coragem. "Pobre do interior tinha mais medo da polícia do que de Deus." Contou-nos como passou a ter ojeriza ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) depois de ouvir a peroração de um de seus integrantes. "Um dia o secretário do curso morreu ao tentar pôr uma bomba no consulado americano; eu não tinha ideia do que acontecia." Consciência política só brotou em Damineli no fim do curso de física na USP, em 1973, com a repercussão do assassinato do presidente do Chile, Salvador Allende, e com as aulas de mestres de outros cursos, como o arquiteto Flávio Império e a professora de Filosofia Marilena Chauí.

Foi ao exterior pela primeira vez ao fim do curso de pós-graduação, quando pegou carona para assistir, em Buenos Aires, aos filmes de Costa-Gavras, proibidos no Brasil. Em 1977, cursou o mestrado e, em 1988, o doutorado na USP, com teses sobre estrelas de grandes massas. O pai Salvatino morreu em 1966, aos 64 anos; a mãe, Ida Viola, em 1990, aos 86, analfabeta.

Como professor da USP, Damineli recebia um terço do salário dos colegas americanos, mas o prestígio internacional só aumentava. Graças à teoria dele, foram organizados cinco times de astrônomos no mundo para observar Carinae. Só na Alemanha, até o começo da década, haviam sido produzidas cinco teses de doutorado inspiradas nos ensinamentos do cientista brasileiro, que, garante, jamais teve expectativas em relação ao Prêmio Nobel. "É necessário que, além da descoberta conceitual, o trabalho estimule o desenvolvimento de novas tecnologias." Eric Cornell, então vizinho de quarto de Damineli, no Colorado, acabara de descobrir o quinto estado da matéria, do qual suspeitaram, 75 anos antes, a dupla Albert Einstein e Satyendranath Bose. Cornell desenvolvera em laboratório a tecnologia de resfriamento de uma substância a 1 milionésimo do grau Kelvin - então, a mais baixa temperatura conhecida no universo.

Na tarde em que conversamos, Damineli apostava todos as fichas do Nobel no trabalho de Cornell. Na mosca. Em 2001, Eric Allin Cornell, de apenas 40 anos, receberia o Prêmio Nobel de Física pela criação experimental do condensado de Bose-Eisntein.

Damineli dizia se espelhar em Galileu Galilei (1564-1642), que enfrentou a intolerância da igreja em nome da razão. "Com Galileu, aprendi a lição de que a timidez é a morte para um cientista. Ele trouxe a astronomia para o cotidiano, fez a gente subir ao céu e o céu descer até nós, utilizando o universo como laboratório e mostrando que as estrelas eram formadas de matéria comum. Ao contrário do contemporâneo Johannes Kepler (1571-1630), que acreditava na matemática cósmica, "Galileu polia as lentes e se empenhava nos experimentos."

Cláudio Renato (texto baseado em entrevista feita em 2000, no Observatório Astrônomico da USP, para reportagem institulada "O tabaréu que ouvia estrelas", vencedora do prêmio de jornalismo da Gazeta Mercantil, em 2001)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sobre foices, martelos e berimbaus

Mestre Pastinha e Jorge Amado
Pastinha,a capoeira e o berimbau e, na foto à direita, em embate improvável com Jorge
Quando o então secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Kruschchev, denunciou, em discurso secreto no XX Congresso do PCUS, os expurgos (assassinatos) e o culto à personalidade do antecessor, Josef Stalin, em 23 de fevereiro de 1956, o comunismo mundial se cindiu definitivamente e os intelectuais patrocinados por Moscou, mundo afora, ficaram atônitos. No Brasil, o principal expoente literário do stalinismo, Jorge Leal Amado de Faria, que recebera, em 1951, o Prêmio Stalin da Paz, rezava na cartilha do realismo socialista e se empenhava pessoalmente no projeto da ditadura do proletariado. Do atoleiro da desilusão, socorreu-lhe o povo da Bahia.


No Largo do Pelourinho, um negro atarracado que nascera com a proclamação da República e estaria, portanto, completando 120 anos, urdia uma revolução silenciosa. Em 1941, onde hoje funciona o restaurante do Senac, Vicente Ferreira Pastinha fundara a primeira escola oficial de capoeira da Bahia e começara, como Jorge Amado e Dorival Caymmi, a assumir importância crucial na preservação e na divulgação da cultura da cidade que, apropriadamente, Gilberto Gil batizou de Roma Negra. Em 1950, mestre Pastinha gravaria, com folcloristas brasileiros e brasilianistas franceses e alemães, documentários que correriam o mundo apresentando os gingados e as ladainhas da capoeira de Angola, genuinamente africana, que servira aos propósitos dos escravos em fuga; mas, a partir de então, seria assumida como arte, dança, manifestação física de elevação espiritual.


São Paulo elegera Jorge Amado deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1945, com 15.315 votos. Mas, com o governo de Eurico Gaspar Dutra, o PCB voltaria à ilegalidade e os mandatos de toda a bancada do Partidão seriam cassados em 1948. Em 1954, Jorge escreveria uma trilogia intitulada Os Subterrâneos da Liberdade, a última aventura panfletária. Era uma obra presa a cânones políticos rígidos, mas temperada com o talento extraordinário que o escritor demonstrara desde os 19 anos, com o primeiro romance, O País do Carnaval, de 1931.

Para Jorge Amado, em consequência do próprio amadurecimento, da denúncia de Kruschchev e do desencanto com Stalin, a literatura renascia, exuberante, naquele final dos anos 50. Era chegada a hora de o contador de histórias de Itabuna, tão criticado pelos estetas, mostrar que, de fato, esbanjava tirocínio literário. A resposta foi fulminante. Em 1958 e 1959, mergulhado na observação do cotidiano real, escreveu dois dos principais romances da literatura brasileira no século passado: Gabriela, Cravo e Canela e A Morte e a A Morte de Quincas Berro d'Água.

Na nova fase, Jorge Amado provava para si mesmo e para os críticos que não precisava de Moscou, mas dependia (sempre), visceralmente, das igrejas barrocas, dos terreiros e das vielas em pés-de-moleque do Pelourinho, da Ladeira do Taboão e da Cidade Baixa. Suas páginas já não se ressentiam das presenças e das influências de Gorki, Stalin, Molotov ou Luís Carlos Prestes, mas precisavam muito da egrégora de Gregório de Mattos, de Castro Alves, dos pescadores e das putas do cais, das moralistas, dos coronéis, dos mascates turcos, dos bêbados, dos capoeiras, dos assassinos de aluguel, dos malandros, dos cornos, dos carnavais, de todos os santos da Bahia, presentes, desde o começo, na literatura amadiana, mas agora muito mais reais, porque vivos, críticos, sensuais, coloridos e livres. Deixava a ingenuidade populista para se tornar o mais popular dos escritores brasileiros.


É bem verdade que dos 20,7 milhões de livros de Jorge Amado vendidos até 2001, o recorde permanecia com o clássico Capitães de Areia (3,7 milhões), escrito em 1937, no auge das execuções comandadas por Stalin na União Soviética, quando Moscou patrocinava aberta ou veladamente os principais intelectuais alinhados do planeta. Mas, se números servem para alguma coisa, Quincas Berro d'Água (3,2 milhões) e Gabriela Cravo e Canela (2 milhões) responderam juntos por 25% do volume total de vendas. E das dez obras mais lidas do escritor baiano, oito foram escritas após as denúncias de Kruschchev.


Ainda na fase comprometida com o comunismo internacional, Jorge Amado conheceu mestre Pastinha e chegou a descrevê-lo, no romance-guia Bahia de Todos os Santos (1944), como "um mulato pequeno, de assombrosa agilidade, de resistência incomum. (...) Os adversários sucedem-se, um jovem, outro jovem, mais outro jovem, discípulos ou colegas de Pastinha, e ele os vence a todos e jamais se cansa, jamais perde o fôlego." Mas a aproximação do romancista com o maior capoeira da história da Bahia se deu no período do amadurecimento de ambos.

O hilário Quincas Berro d'Água, por exemplo, foi publicado, em 1959, na revista Senhor, embora só transformado em livro três anos mais tarde, com prefácio de Vinicius de Moraes. O poeta reconhecia ali a transfiguração sutil e radical no trabalho de Jorge Amado, que abandonara os influxos maniqueístas e flertava com o realismo mágico, cujo monumento inaugural é Pedro Paramo (1955), obra-prima de pouco mais de 150 páginas do mexicano Juan Rulfo. É no Quincas, por exemplo, que Jorge faz sua maior homenagem ao mestre da capoeira de Angola. No romance, Negro Pastinha é um dos melhores amigos de Joaquim Soares da Cunha, o Quincas, pai e marido exemplar e funcionário público respeitável que, um dia, cansado da mediocridade, decide se entregar à boêmia. Torna-se o cafajeste mais debochado e querido do submundo de Salvador, para o constrangimento da família e o regozijo da ralé dos becos, bares e lupanares.

Pastinha, que defendia a natureza desportiva da arte marcial africana, publicou um livro, Capoeira de Angola, em 1965. Jorge Amado escreveu no prefácio: "... mestre da capoeira de Angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com toda sua picardia, é um dos seus ilustres, um de seus abás, de seus chefes. É o primeiro em sua arte, senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência fraternal. Em sua escola, no Pelourinho, Mestre Pastinha constrói cultura brasileira, da mais real e da melhor. Toda vez que assisto esse homem, de 75 anos, a jogar capoeira, dançar samba, exibir sua arte com o elã de um adolescente, sinto a invencível força do povo da Bahia, sobrevivendo e construindo apesar da penúria infinita, da miséria, do abandono. Em si mesmo o povo encontra forças e produz sua grandeza. Símbolo e face deste povo é mestre Pastinha."

No final da década de 1950, a exemplo do movimento comunista mundial, a capoeira na Bahia sofreria um racha e Jorge tomaria partido do mestre Pastinha. Em um manifesto de 1958, o escritor condena as transformações empreendidas pelo mestre Bimba, criador da chamada capoeira regional. "Trava-se, atualmente, nos arraiais da capoeira na Bahia, uma grande discussão. Acontece que mestre Bimba foi ao Rio de Janeiro mostrar aos cariocas da Lapa como é que se joga capoeira. E lá aprendeu golpes de catch-as-catch-can, de jiu-jitsu, de boxe. Misturou tudo isso à capoeira de Angola, aquela que nasceu de uma dança dos negros, e voltou à sua cidade falando numa nova capoeira, a capoeira regional. Dez capoeiristas dos mais cotados me afirmaram, num amplo e democrático debate que travamos sobre a nova escola de mestre Bimba, que a 'regional' não merece confiança e é uma deturpação da velha capoeira da Angola, a única verdadeira."

Bem longe de Moscou e da China, os terreiros regionais e de Angola de Salvador convivem pacificamente. E os mestres Pastinha e Bimba jamais se declararam inimigos.

Sobre a vida de Vicente Ferreira Pastinha (1889-1981), que nasceu e morreu em Salvador, pai espanhol e mãe baiana, a fonte mais fidedigna é o depoimento do próprio mestre ao Museu de Imagem e do Som (MIS), em 1967. "Quando tinha uns dez anos - e era franzininho - um outro menino mais taludo do que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua - ir na venda fazer compra, por exemplo - e a gente se pegava em briga. Só sei que acabava apanhando dele, sempre. Então ia chorar escondido de vergonha e tristeza." As humilhações se repetiriam até Pastinha conhecer Benedito, negro alforriado. "Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu a uma briga da gente: 'Vem cá, meu filho!', ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. 'Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando raia, vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia'". Ali, Pastinha começaria a aprender o legado da cultura da África que passaria para muitas gerações de mestres na Bahia e em todo o Brasil.

Benedito, o professor, exigia de Pastinha a dedicação de um samurai. "Ele costumava dizer: 'não provoque, menino, vai botando devagarinho ele (o rival) sabedor do que você sabe'". Pastinha, enfim, pôde mostrar ao rapaz o que sabia e a rivalidade se converteria em amizade e admiração." Além de técnicas de capoeira, Pastinha aprendeu a ser didático, comunicativo e original. Ele passou a privilegiar a expressão artística da capoeira, o trabalho físico e mental da modalidade de Angola, a mais tradicional das artes marciais africanas que aportaram no Brasil. E tocava berimbau acompanhado das ladainhas, que atraíam também as mulheres e crianças.


Em 1966, enquanto Jorge Amado lançava Dona Flor e Seus Dois Maridos, Pastinha integrava a comitiva brasileira ao primeiro Festival Mundial de Arte Negra no Senegal. Nas gerações memoráveis de capoeiristas que formou estão João Grande, João Pequeno, Curió e Bola Sete (presidente da Associação Brasileira de Capoeira Angola). A escola de Pastinha passou a ser frequentada por Jorge Amado e pelos artistas plásticos Mário Cravo e Carybé e cantada por Caetano Veloso, no disco Transa (1972). Na fase mais turva da ditadura militar, em 1973, Pastinha foi expulso do Pelourinho, enquanto Jorge colhia o sucesso de Teresa Batista Cansada de Guerra. O mestre sofreu, em sequência, dois derrames e ficou cego. Mesmo assim, gingou capoeira até a morte, aos 92 anos. No depoimento ao MIS, revelou: "Tudo o que penso da capoeira, escrevi no quadro que está na porta da academia. Em cima, três palavras: Angola, capoeira, mãe. E, embaixo, o pensamento: "Mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista."


Cláudio Renato

Documentário gravado pelo folclorista brasileiro Alceu Maynard: imagens inéditas do mestre Pastinha jogando com alunos do seu grupo - o CECA - na Bahia, em 1950.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

La Reina Negra de la America

El diamante fino que alumbra nuestra alma serena
Há exatamente cinco anos, em 6 de outubro de 2004, o cantor e compositor cubano Pablo Milanès apresentou um recital histórico no Estádio Luna Park, o centro cultural mais importante de Buenos Aires, com 7 mil metros quadrados e capacidade para 6,4 mil pessoas. Expoente da chamada Nueva Trova, Milanès é muito popular na Argentina. Ele começou a tornar-se conhecido internacionalmente no final da década de 1960, quando se juntou ao também poeta, músico e cubano Silvio Rodrìguez. Gozavam do mesmo prestígio e amargavam semelhantes desventuras de outros artistas latinoamericanos em escaramuças contra as ditaduras que se insinuavam ou já assolavam o continente, como os chilenos Victor Jara (barbaramente torturado e assassinado pelo governo do general Augusto Pinochet em 1973) e Violeta Parra (que, morta pela depressão, suicidou-se em 1967), os brasileiros Chico Buarque e Milton Nascimento, o uruguaio Daniel Viglietti e a argentina Mercedes Sosa.

Teatro lotado, concerto em andamento, Pablo Milanès feliz. Quando o teclado e o violino introduziram os primeiros acordes de Años - a antológica e ontológica canção de ninar a velhice e filosofar o tempo - Milanès foi interrompido por uma voz inconfundível, simultaneamente forte e altiva como um índio quechua e doce como as laranjas do Tucumán. Era a senhora Haydèe Mercedes Sosa, que estava na platéia e colheu, de surpresa, a emoção do público.

Milanès a chama de La Reina, a rainha. O povo a conhece como La Negra, a mestiça.

La Negra Sosa solta a voz: "El tiempo pasa/Nos vamos poniendo viejos..."

O público segue em uníssono: "Yo el amor/No lo reflejo como ayer..."

Pablo Milanês gargalha gostosamente.

Mercedes, de óculos, segura um pedaço de papel de onde lê o poema e prossegue cantando: "En cada conversación/Cada beso cada abrazo/Se impone siempre un pedazo/De razón..."

Ela olha para Milanès e pergunta: "Tá bom?" O cubano, que parece transbordar de alegria, responde sorrindo, regendo e manda beijos para La Reina, acompanhado pelo delírio das milhares de pessoas que tiveram a felicidade de testemunhar aquela momento.

Seis minutos da mais pura emoção do dueto à distância, que felizmente foram gravados.

Em 1981, Raimundo Fagner lançou Traduzir-se, mais que um disco, um projeto dedicado ao cineasta Glauber Rocha (morto naquele ano) e uma das mais fundamentais obras da música popular feitas por um artista brasileiro. E lá estão Florbela Espanca, Manzanita e Garcia Lorca, Juan Manuel Serrat, Ferreira Gullar, Ricardo Pachon, Camarón de La Isla, Pablo Milanès e Mercedes Sosa, com quem Fagner divide a intepretação, em espanhol e em português, de Años.

O Brasil, que nunca foi louco por ti, América, demorou a reconhecer o talento de Mercedes Sosa. Pelo avesso, enquanto La Negra já pontificava nos palcos da Europa e dos Estados Unidos, aqui se escarnecia daquela velha índia corpulenta, de poncho vermelho, sempre a tocar bumbo. O primeiro contato que tivemos com Mercedes Sosa se deu graças à gravação de Volver a los 17 para o LP Geraes (1976), de Milton Nascimento, um dos primeiros e raros discos nacionais preocupados com integração continental, em que Milton apresenta também o Grupo Água, do Chile, a interpretar as canções Caldera (Nelson Araya) e Promessas do Sol (Milton Nascimento e Fernando Brandt).

Além de Milton e Fagner, La Negra - a partir da segunda metade da década de 1970 e principalmente nos anos 80 - torna-se amiga, interpreta canções de compositores brasileiros e faz duetos com Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Gal Costa, Djavan, Marcos Valle, Beth Carvalho, Kleiton e Kledyr. E chega a dividir o palco, em São Paulo, em 2007, com a principiante Maria Rita. Sempre elegante, não recusava o convite das cantoras muito mais jovens. Que o diga a colombiana Shakira, que cantou com Mercedes Sosa e tem adoração por La Negra.

O Brasil demorou, mas reconheceu o talento de Mercedes Sosa, a mestiça de ameríndios e europeus que nasceu em Tucumán, a 9 de julho (mesmo lugar e data da Independência da Argentina) de 1935. Quando nos deixou na manhã de domingo, 4 de outubro de 2009, La Negra já semeara o ideal de união voluntária e de autodeterminação dos povos e consolidara uma obra de canções "com fundamento" (como gostava de frisar). Entre as quais, Años, que é eterna, porque nesta vida não existem velhos e moços, mas vivos que se mortificam, mortos que sobrevivem, natimortos e mortivivos, além daqueles muitos anônimos e poucos assinalados que se dignificam na própria história.


Años (Pablo Milanès)

"El tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo, como ayer.
En cada conversación, cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de razón.
Pasan los años y como cambia lo que yo siento
Lo que ayer era amor se va volviendo otro sentimiento.
Porque años atrás tomar tu mano, robarte un beso
sin forzar un momento
formaban parte de una verdad.
El tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación, cada beso, cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de temor
Vamos viviendo, viendo las horas, que van muriendo
las viejas discusiones se van perdiendo entre las razones.
A todo dices que sí, a nada digo que no, para poder construir
la tremenda armonía, que pone viejos los corazones.
El tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversación, cada beso, cada abrazo
Se impone siempre un pedazo
De razón."
Cláudio Renato

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio, como nunca antes na história deste país

E como continua linda!
O mineiro Milton Nascimento e o baiano Gilberto Gil compuseram, na virada do século, a linda e emblemática canção intitulada Sebastian, uma manifestação sincera de amor à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, "tão castigada e tão bela." Quase impossível não se orvalharem as maçãs do rosto em lágrimas. "Cada parte do teu corpo/Cada flecha envenenada/Flechada por pura inveja/é um pedaço de bairro/é uma praça do Rio/Enchendo de horror quem passa." O estribilho, que invoca o nome do padroeiro, é comoventemente berrado pelos dois titãs da música popular brasileira: "Sebastião! Sebastião!" E um apelo dramático na oração: "Ó, cidade, ó menino/Que me ardem de paixão/Eu prefiro que essas flechas/Saltem pra minha canção/Livrem da dor os meus amados!"


A inveja, o mais temível dos ressentimentos, paira sobre os cidadãos cariocas desde 1763, quando o marquês de Pombal transferiu a sede da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro. Em 1808, com a transmigração da corte portuguesa, em consequência das guerras napoleônicas, o Rio passaria a ser o centro das decisões do Império Português. De 1815 a 1821, o poder se concentraria ainda mais na cidade, elevada à capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. E assim permaneceria, com a independência política do Brasil e a proclamação da República, até 1960, quando perdeu o primazia, pela decisão no mínimo controvertida do governo de Juscelino Kubitschek de transferiar a capital para o Planalto Central. Seguiram-se o esvaziamento, o escárnio e a humilhação da Cidade Maravilhosa.


Que os cariocas façam figa, porque o Rio de Janeiro volta a seduzir a atenção mundial, com a eleição da cidade para sediar as Olimpíadas de 2016, que deverão atrair investimentos de US$ 14 bilhões. O Rio também abrigará os principais jogos da Copa do Mundo de 2014 (a final será no Maracanã) e poderá desfrutar da saúde econômica e financeira com a descoberta de novas reservas de petróleo e gás nas camadas profundas do pré-sal que, a longo prazo, deverá movimentar US$ 440 bilhões em desenvolvimento de tecnologia, ampliação da capacidade instalada da indústria, construção de estaleiros e formação de mão de obra.


A Guanabara, um dos sítios naturais mais magníficos do mundo, começa, mais uma vez, a ser alvo dos invejosos e pescadores de águas turvas, que já querem dividir o dinheiro do pré-sal, inaugurar a Copa do Mundo em São Paulo e batizar os Jogos Olímpicos de 2016 como Olimpíadas do Brasil, em detrimento da tradição olímpica moderna, desde o Barão de Coubertin (1863-1937), que consagra todos os privilégios e responsabilidades à cidade-sede. Calma, porque tem para todo mundo. E todos passarão! Desviem, pelo menos um pouco, o olho grande e esbugalhado da "imagem tão castigada e tão bela" de São Sebastião.


Ao se ouvir esta canção de Milton e Gil, a pergunta se impõe: De onde parte tanta aleivosia, tanto rancor contra uma cidade que deu à luz Machado de Assis, Pixinguinha, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e tantos outros iluminados, além de um povo tão alegre? De uma elite hipócrita e de uma classe média falida e ressentida, de diferentes origens, muitas vezes, infelizmente, nascidas no próprio Rio de Janeiro. São pessoas sempre prontas a manifestar desconfianças e a atacar covardemente qualquer iniciativa, porque sabem que nunca nada será perfeito. Esperam ansiosamente o erro, apostam no fracasso e jamais reconhecem os acertos. Gente que despreza um presidente operário, porque este, origem humilde, é monoglota, só tem nove dedos nas mãos (chegam a dizer que ele teria posto a mão esquerda na prensa de propósito para perder o dedo mínimo), chora como criança, bebe cachaça e fala diretamente aos mais pobres. Fingem esquecer que, por muitos atributos, é admirado no mundo inteiro, disputado por autoridades, que se acotovelam como tietes só para ver ele passar.


Pelo menos por uma semana, nos deixem ser ufanistas e orgulhosos. Cuidem de suas economias. Contem os seus vis metais. Cumpram com suas obrigações. Corram para o psicanalista, procurem autoajuda. Mas, por caridade, nos deixem botar o bloco na rua em paz!


Para reflexão (sem querer espicaçar mais ainda a inveja de ninguém), assistam ao vídeo de apresentação do Rio de Janeiro, preparado pelo Comitê Olímpico Brasileiro.


Cláudio Renato


sábado, 26 de setembro de 2009

Uma canção inédita de Dolores Duran

Alaíde Costa
Partitura da Música Desconhecida, atribuida a Dolores Duran

Quando o coração irrequieto de Dolores Duran parou de bater, há meio século, em 23 de outubro de 1959, a cantora e compositora estava no auge da carreira. Nos dois últimos anos de vida, compusera as suas músicas mais marcantes como Castigo, A Noite do Meu Bem, Olha o Tempo Passando e Estrada do Sol. Deixou, aos 29, uma obra consolidada e comovente. Nesse período, teria feito uma canção triste e singela, bem a seu estilo, nunca gravada, sequer batizada, mas que ficou na memória da principiante Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide. Com voz muito suave, Alaíde chamara, naquele final dos anos 50, a atenção do exigente João Gilberto pelo modo diferente como interpretava. Ela conta que aprendeu a música, na Rádio Nacional, com o coautor, Édison Reis de França, o Edinho, fundador do Trio Irakitan. Dolores morreria em seguida. Edinho suicidou-se em Copacabana, em 1965. Alaíde passaria os anos a assoviar e cantarolar a Música Desconhecida, como ficou para ela conhecida aquela canção atribuída a Dolores Duran e a Édison França. Na semana passada, por telefone, Alaíde nos sussurrou a tal música, cuja letra diz:

"Está fazendo tanto tempo
Que eu até nem sei contar
Eu só sei que estou tão triste
E não canso de chorar
Eu só sei que esta saudade
Nunca vai me deixar
As palavras dos momentos
Não consigo nem lembrar
Só me lembro dos teus olhos
E não canso de chorar"

Alaíde Costa desembarca no Rio esta semana para um espetáculo em homenagem a Dolores Duran, no próximo dia 1 de outubro, às 18h45, no Teatro Gonzaguinha, com participação especial do maestro Gilson Peranzzetta, orgulho de Brás de Pina, do Rio de Janeiro e do Brasil. Ela diz que vai aproveitar a oportunidade para apresentar em primeira mão ao público carioca a Música Desconhecida.
- Queria muito gravar essa canção, mas há problemas de direitos autorais e não tenho contato com as famílias de Dolores e de Edinho. Preciso das autorizações. Na verdade, só a cantei em público uma vez, há muitos anos, de surpresa, em Araraquara, São Paulo, durante um show organizado pelo escritor e jornalista Sérgio Cabral, que se chamava Boteco do Cabral. Ela não tem título e estou pensando em lhe dar um nome, porque acho que isso posso fazer - revela.
Às vésperas de completar 74 anos, 52 de carreira, Alaíde Costa é considerada uma das mais importantes intérpretes da Bossa Nova. A suavidade do canto seduziu João Gilberto, em 1958, antes mesmo de ele gravar a memorável Chega de Saudade, de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. Ela lembra do começo do movimento:
- O João me viu e ouviu cantar na Odeon. Ele adorou, mas não veio falar comigo. Chamou o produtor Aloísio de Oliveira e pediu que me convidasse para as reuniões nos apartamentos da Zona Sul do Rio, onde começava a se discutir uma proposta diferente para a música popular brasileira. Havia reuniões no apartamento da Nara Leão, mas também em muitos outros. A primeira reunião em que fui, em 1958, por exemplo, foi no apartamento do pianista Bené Nunes, na Rua Duque Estrada, na Gávea. Tinha ainda o apartamento da mãe do Nelson Motta (Maria Cecília Britto Motta), o da família do Maurício Maestro, o apartamentão do fotógrafo Chico Pereira, no Lido. O João foi fundamental na minha carreira, mas faz muitos anos que não o vejo nem falo com ele.
Alaíde Costa também é compositora e ensaia as canções no piano Delarue, que ganhou do poeta Vinicius de Moares, em 1960, depois de tentar, sem sucesso, pagá-lo a prestações. No começo, o piano tinha tom de cereja. Depois de muitas reformas, decidiu escurecê-lo. Está mais clássico.
- O arranjador e compositor Moacir Santos era muito amigo do Vinicius, que se preparava para viajar para os Estados Unidos. O poeta queria vender o piano e o Moacir achava que eu deveria ter um. Ele intermediou o negócio, mas eu nunca tinha dinheiro para pagar as prestações. Sempre que encontrava com Vinicius, arrumava uma desculpa. Um dia ele me disse: "Alaíde, pare de falar do diabo do piano e fique com ele pra você!"
É no piano presenteado por Vinicius que Alaíde se inspira e se exercita. "Tenho muita coisa inédita, muito trabalho pela frente". Alaíde Costa já gravou discos com Peranzetta, João Carlos Assis Brasil e Milton Nascimento. Começou em programas de calouros infantis, como Sequência G3 (Rádio Tupi) e Arraia miúda (Rádio Nacional), apresentado pelo ator Paulo Gracindo. Tinha 13 anos. No início da década de 1950, ousou cantar no programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso, e conquistou a nota máxima. Estourou com a Bossa Nova e consolidou uma carreira internacional. O maior sucesso foi Onde está você? (1964), de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini. Em 2003, apresentou-se, com Johnny Alf, no London Jazz Festival, realizado no Queen Elizabeth Hall, em Londres. Em 2005, foi contemplada com o Prêmio Rival Petrobras da Música, como a melhor cantora do país naquele ano. Ainda em 2005, participou, em Paris, ao lado de Elza Soares e Jair Rodrigues, do show Brasil Brasileiro, que encerrou o Ano do Brasil na França.
- Canto músicas que me tocam. Não identifico influências em minhas composições, mas, como cantora, adorava uma chamada Neusa Maria, que se apresentava na Rádio Nacional. Não sei que fim levou, mas era excepcional. Não canto necessariamente bossa nova, mas a minha voz combina com ela. O meu nome ficou ligada ao movimento, porque o João insistia que tinha uma maneira diferente de cantar. E o João, com aquele jeito dele, você sabe!
Neusa Maria, principal influência de Alaíde Costa, é o nome artístico de Vasiliki Purchio, filha de uma família italiana radicada em São Paulo. Começou a cantar aos 12 anos. A menina mereceu os epítetos de Rainha do Jingle e Voz Doçura do Brasil. Adotou o nome artístico de Neusa Maria por sugestão do radialista Abílio Caldas, já que o nome de batismo era muito difícil de se pronunciar. No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, do pesquisador Ricardo Cravo Albin, não há informação sobre o paradeiro de Neusa Maria, que gravou o último dos seus 50 discos em 1959. Ela estaria agora com 81 anos.
Alaíde Costa, que trabalhou como empregada doméstica, é uma mulher elegante, caprichosa mas vive modestamente, no bairro Jardim Bonfiglioli, em São Paulo. Anda de ônibus para cima e para baixo. Até quando vai dar shows.
- E o que é que tem? Só não vou vestida, claro, pra não ficar toda amarrotada. Mas levo a roupa numa bolsa e vou de ônibus, de metrô, sem problema algum.
Cláudio Renato


domingo, 20 de setembro de 2009

Martinho da Vila e a Kizomba de Noel

Martinho da Vila: sambas, discos e livros à mancheia
Cartola, que completaria 100 anos em 2008, foi vítima da maior injustiça já perpetrada na história dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Com Saturnino Gonçalves (pai de Dona Neuma), Marcelino Maçu, Zé Espinguela e Carlos Cachaça, criou, em 1928, o Bloco dos Arengueiros, que daria origem à Estação Primeira de Mangueira, a escola de samba mais popular do Brasil. O nome e as cores verde e rosa teriam sido escolhidas pelo próprio Cartola, que também é autor do primeiro samba do grêmio recreativo, Chega de Demanda. Em sã consciência, ninguém nas redondezas do Buraco Quente, Telégrafos, Pendura Saia, Santo Antônio ou Chalé poderia imaginar que, justamente naquele ano, o enredo da escola fosse outro que não o da exaltação da vida e da obra do pai fundador Agenor de Oliveira, o maior poeta do samba. Infelizmente, foi. Em troca de R$ 3 milhões da prefeitura do Recife, a Mangueira levou para a Marquês de Sapucaí a celebração de outro centenário: o do frevo pernambucano.

Recife comemorou o século de frevo com um dos carnavais mais animados e lucrativos das últimas décadas. Só na região central da cidade, 1,5 milhão de foliões foram às ruas acompanhar o Galo da Madrugada e outras 400 agremiações que ali desfilaram. Durante cinco dias de festa, 350 artistas - 90% pernambucanos - fizeram mais de 400 shows. Seiscentos mil turistas foram arrastados para a capital pernambucana, cujo carnaval ganhou destaque no mundo durante a preparação para os desfiles da Passarela do Samba Darcy Ribeiro (o Sambódromo do Rio), acompanhados por 1.150 jornalistas cadastrados, brasileiros e estrangeiros. A movimentação financeira no carnaval recifense de 2008 chegou a R$ 283 milhões, e a Magueira recebeu pouco mais de 1% desse faturamento. "Conseguimos dar uma dimensão internacional a nossa festa. Tivemos uma boa repercussão e uma cobertura excelente. Em grande parte, o interesse pela folia recifense se deveu ao samba-enredo sobre o frevo levado à Marquês de Sapucaí pela Mangueira, no Rio de Janeiro", exultou o então prefeito do Recife, João Paulo Lima e Silva.

No Rio de Janeiro, a Mangueira fez um desfile melancólico, que lhe valeu o décimo lugar entre 12 concorrentes. Por muito pouco, não foi rebaixada. Um fracasso que deveria servir de alerta a outras escolas de samba tão facilmente seduzidas pelos temas patrocinados. Em um dos bairros vizinhos, Vila Isabel, por exemplo, a preocupação redobrava-se, porque, em 2010, Noel Rosa - companheiro inseparável de Cartola - completaria 100 anos. Nenhum lugar no Rio se orgulha mais de uma personalidade do que a Vila de Noel, que inspira nomes e partituras em calçadas, bares, sinucas, açougues, túnel e até em banco (a agência da Caixa Econômica Federal, no Boulevard, por exemplo, se chama oficialmente Agência Noel Rosa). Mas a Vila Isabel tem um xerife: Martinho José Ferreira, que, aos 71 anos, deixou de lado as divergências com a diretoria e assumiu, de pronto, a coordenação do enredo. Contrariando as expectativas iniciais, Martinho inscreveu um samba de 35 versos que disputa na quadra o privilégio de apresentar Noel Rosa para o Brasil e para o mundo. Pode perder o carnaval, mas certamente ganhará no quesito dignidade (letra e vídeo abaixo).

Preguiçoso e malemolente, Martinho da Vila fala cantando e canta falando. Devagar, devagarinho...e sempre. É o maior sambista vivo do Brasil e um pesquisador popular de mancheia, capaz de transformar em sucesso nacional um samba-crônica de 1917 como "Batuque na Cozinha", de João da Bahiana, ou uma toada de congo capixaba, como "Madalena do Jucu", de domínio público. Martinho não é carioca. Nasceu em Duas Barras, município serrano e rural no interior fluminense, em pleno carnaval, 12 de fevereiro de 1938, ano em que, segundo o historiador Hiram Araújo, as agremiações carnavalescas começaram a construir enredos sobre fatos históricos nacionais. “Essa tradição começou quando o nacionalismo fez Getúlio Vargas proibir letras que falassem de temas internacionais”, conta Araújo. Em 1939, lembra, a escola Vizinha Faladeira foi desclassificada ao descumprir a proibição e desfilar com o enredo “Branca de Neve e os Sete Anões." Até hoje, Martinho acredita que o nacionalismo é fundamental para o desenvolvimento da cultura popular.

Com 40 anos de carreira, Martinho da Vila não se limita à música popular. É autor de sete livros - Kizombas Andanças e Festança, Romance Fluminense, Ópera Negra, Memórias de Tereza de Jesus, Lusofonia, Vermelho 17 e Serra do Rola-moça - e acaba de lançar um opúsculo infantil, A Rainha de Bateria. Conta a história edificante de uma menina que morava ao lado de uma escola de samba e tinha muita curiosidade de conhecê-la. De tanto ouvir os sambas-enredo, tirava ótimas notas no colégio, principalmente em História do Brasil. O boletim escolar tornou-se a credencial para que ela acabasse se tornando rainha de bateria.

Martinho da Vila será protagonista de um documentário da cineasta Isabel Jaguaribe, a mesma que assinou, em 2003, "Meu Tempo é Hoje", sobre Paulinho da Viola. O filme é baseado nas relações do cantor e compositor brasileiro com a África lusófona. Ele acaba de chegar de uma turnê de 45 dias em Portugal e já está de malas prontas para uma viagem ao Chile e ao Uruguai. Antes de partir, Martinho conversou com o Passavante. Disse acreditar que a Vila poderá repetir o êxito do desfile Kizomba, Festa da Raça, de 1988, quando, sob sua batuta, a escola foi, pela primeira vez, campeã do Grupo Especial.
1 – Você tomou as rédeas do enredo da Vila Isabel no centenário de Noel Rosa. Qual a sua expectativa?

A Unidos de Vila Isabel vai fazer uma festança para ele (e com ele) no próximo carnaval, ocasião em que o gênio será laureado com o enredo Noel – A Presença do Poeta, tema que sugeri ao carnavalesco Alex de Souza. O pesquisador Alex Viana escreveu a sinopse, baseando-se na biografia do Noel Rosa, escrita por João Máximo e Carlos Didier. A minha expectativa é de que consigamos fazer um desfile do nível do Kizomba, A Festa da Raça, mas com outras características. Também estou concorrendo com um samba na quadra.

2 – Você deixou Vila Isabel para morar na Barra da Tijuca. Você se arrepende?

Não me arrependo, mas sinto muitas saudades do bairro de Vila Isabel. Pra matar a saudade, estou sempre por lá. Tenho filhos que moram no bairro, onde também mantenho meu escritório. Quando chego de viagem, saio do aeroporto e costumo dar uma parada na Vila para ver os amigos e sentir o clima do bairro antes de ir para a Barra da Tjuca. Mas também tenho em Duas Barras, minha cidade natal na região serrana, uma propriedade rural (Martinho comprou a fazenda onde nasceu, ao descobrir que estava à venda). Duas Barras compete com o bairro de Vila Isabel. Meu tempo de folga é dividido entre esses dois lugares.

3 – É possível conciliar o sucesso com um trabalho de composição sofisticado?

É muito possivel, desde que a sofisticação não retire a essência popular, que é o mais importante. Gosto de gravar discos temáticos e vários deles, como o Canto das Lavadeiras, foi concebido a partir de pesquisas na cultura popular, onde me abasteço e que é essencial ao meu processo de criação.

4 – Além de Noel Rosa, evidentemente, você destacaria algum outro compositor genial no Brasil. Digamos, uns cinco?
É impossivel, porque não temos somente cinco maiores compositores. É muito mais. Muitos compositores geniais.

5 – Com 40 anos de carreira, qual a reflexão que você faz sobre a música e a cultura popular no Brasil?

Não gosto muito de falar, prefiro cantar e escrever, mas dizem que canto falando e muitos acham que escrevo melhor do que falo. Nasci na cidade de Duas Barras, no Rio de Janeiro, mas a minha infância não foi no interior. Passei na favela Boca do Mato, onde morava com muitos parentes e amigos que vieram de Duas Barras e de várias outras cidades fluminenses e de todo o Brasil em busca de novas oportunidades de vida. Lá, na Boca do Mato, nos reuníamos para cantar, conversar, festejar e fui muito influenciado por isso. E assim tive meu primeiro contato com a folia de Reis, os calangos e o mineiro-pau. Acho que a minha carreira é resultado desse caldo cultural.
Desde Carmem Miranda, a nossa música vem se expandindo pelo planeta graças a nossos artistas. Se houver um projeto bem planejado e uma boa estratégia, a nossa MPB tem condições de impulsionar o Brasil para o seu destino de ser uma grande potência mundial. Não só musicalmente. Para isso é necessário apenas um pouco de nacionalismo. Sou de opinião que, ao menos em termos musicais, devemos ser nacionalistas. Acredito piamente que a nossa música popular ainda vai suplantar a americana no consumo mundial. Se eu fosse Presidente da República, decretaria que o Ministério das Relações Exteriores desse instruções a todos os nossos embaixadores para que, no Sete de Setembro, Dia da Independência, organizasse, junto com o Ministério da Cultura, eventos de música popular em todos os países onde temos representação. Com uma ação dessas, teríamos, anualmente, um dia em que a nossa música popular estaria sendo mostrada em muitos países.
Cláudio Renato
O SAMBA DE MARTINHO DA VILA SOBRE NOEL ROSA - 2010
Compositor: Martinho da Vila
Intérprete: Wantuir
Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel?
Com toda minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu
Seu sambas muito curti
Com a cabeça ao léu
Sua presença senti
No ar de Vila Isabel
Com o sedutor não bebi
Nem fui com ele ao bordel
Mas sei que está presente
Com a gente nesse laurel
Veio ao planeta com os auspícios de um cometa
Naquele ano da Revolta da Chibata
A sua vida foi de notas musicais
Seus lindos sambas animavam carnavais
Brincava em blocos com boêmios e mulatas
Subia morros sem preconceitos sociais
Foi um grande chororô
Quando o gênio descansou
Todo o samba lamentou ô ô ô
Que enorme dissabor
Foi-se o nosso professor
A Lindaura soluçou
E a dama do cabaré não dançou
Fez a passagem pro espaço sideral
Mas está vivo neste nosso carnaval
Também presente Cartola
E o Bando dos Tangarás
Lamartine, Ismael, Aracy e outros mais
E a fantasia que se usa
Pra sambar com o menestrel
Tem a energia da nossa Vila Isabel