Cartola, que completaria 100 anos em 2008, foi vítima da maior injustiça já perpetrada na história dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Com Saturnino Gonçalves (pai de Dona Neuma), Marcelino Maçu, Zé Espinguela e Carlos Cachaça, criou, em 1928, o Bloco dos Arengueiros, que daria origem à Estação Primeira de Mangueira, a escola de samba mais popular do Brasil. O nome e as cores verde e rosa teriam sido escolhidas pelo próprio Cartola, que também é autor do primeiro samba do grêmio recreativo, Chega de Demanda. Em sã consciência, ninguém nas redondezas do Buraco Quente, Telégrafos, Pendura Saia, Santo Antônio ou Chalé poderia imaginar que, justamente naquele ano, o enredo da escola fosse outro que não o da exaltação da vida e da obra do pai fundador Agenor de Oliveira, o maior poeta do samba. Infelizmente, foi. Em troca de R$ 3 milhões da prefeitura do Recife, a Mangueira levou para a Marquês de Sapucaí a celebração de outro centenário: o do frevo pernambucano.
Recife comemorou o século de frevo com um dos carnavais mais animados e lucrativos das últimas décadas. Só na região central da cidade, 1,5 milhão de foliões foram às ruas acompanhar o Galo da Madrugada e outras 400 agremiações que ali desfilaram. Durante cinco dias de festa, 350 artistas - 90% pernambucanos - fizeram mais de 400 shows. Seiscentos mil turistas foram arrastados para a capital pernambucana, cujo carnaval ganhou destaque no mundo durante a preparação para os desfiles da Passarela do Samba Darcy Ribeiro (o Sambódromo do Rio), acompanhados por 1.150 jornalistas cadastrados, brasileiros e estrangeiros. A movimentação financeira no carnaval recifense de 2008 chegou a R$ 283 milhões, e a Magueira recebeu pouco mais de 1% desse faturamento. "Conseguimos dar uma dimensão internacional a nossa festa. Tivemos uma boa repercussão e uma cobertura excelente. Em grande parte, o interesse pela folia recifense se deveu ao samba-enredo sobre o frevo levado à Marquês de Sapucaí pela Mangueira, no Rio de Janeiro", exultou o então prefeito do Recife, João Paulo Lima e Silva.
No Rio de Janeiro, a Mangueira fez um desfile melancólico, que lhe valeu o décimo lugar entre 12 concorrentes. Por muito pouco, não foi rebaixada. Um fracasso que deveria servir de alerta a outras escolas de samba tão facilmente seduzidas pelos temas patrocinados. Em um dos bairros vizinhos, Vila Isabel, por exemplo, a preocupação redobrava-se, porque, em 2010, Noel Rosa - companheiro inseparável de Cartola - completaria 100 anos. Nenhum lugar no Rio se orgulha mais de uma personalidade do que a Vila de Noel, que inspira nomes e partituras em calçadas, bares, sinucas, açougues, túnel e até em banco (a agência da Caixa Econômica Federal, no Boulevard, por exemplo, se chama oficialmente Agência Noel Rosa). Mas a Vila Isabel tem um xerife: Martinho José Ferreira, que, aos 71 anos, deixou de lado as divergências com a diretoria e assumiu, de pronto, a coordenação do enredo. Contrariando as expectativas iniciais, Martinho inscreveu um samba de 35 versos que disputa na quadra o privilégio de apresentar Noel Rosa para o Brasil e para o mundo. Pode perder o carnaval, mas certamente ganhará no quesito dignidade (letra e vídeo abaixo).
Preguiçoso e malemolente, Martinho da Vila fala cantando e canta falando. Devagar, devagarinho...e sempre. É o maior sambista vivo do Brasil e um pesquisador popular de mancheia, capaz de transformar em sucesso nacional um samba-crônica de 1917 como "Batuque na Cozinha", de João da Bahiana, ou uma toada de congo capixaba, como "Madalena do Jucu", de domínio público. Martinho não é carioca. Nasceu em Duas Barras, município serrano e rural no interior fluminense, em pleno carnaval, 12 de fevereiro de 1938, ano em que, segundo o historiador Hiram Araújo, as agremiações carnavalescas começaram a construir enredos sobre fatos históricos nacionais. “Essa tradição começou quando o nacionalismo fez Getúlio Vargas proibir letras que falassem de temas internacionais”, conta Araújo. Em 1939, lembra, a escola Vizinha Faladeira foi desclassificada ao descumprir a proibição e desfilar com o enredo “Branca de Neve e os Sete Anões." Até hoje, Martinho acredita que o nacionalismo é fundamental para o desenvolvimento da cultura popular.
Com 40 anos de carreira, Martinho da Vila não se limita à música popular. É autor de sete livros - Kizombas Andanças e Festança, Romance Fluminense, Ópera Negra, Memórias de Tereza de Jesus, Lusofonia, Vermelho 17 e Serra do Rola-moça - e acaba de lançar um opúsculo infantil, A Rainha de Bateria. Conta a história edificante de uma menina que morava ao lado de uma escola de samba e tinha muita curiosidade de conhecê-la. De tanto ouvir os sambas-enredo, tirava ótimas notas no colégio, principalmente em História do Brasil. O boletim escolar tornou-se a credencial para que ela acabasse se tornando rainha de bateria.
Martinho da Vila será protagonista de um documentário da cineasta Isabel Jaguaribe, a mesma que assinou, em 2003, "Meu Tempo é Hoje", sobre Paulinho da Viola. O filme é baseado nas relações do cantor e compositor brasileiro com a África lusófona. Ele acaba de chegar de uma turnê de 45 dias em Portugal e já está de malas prontas para uma viagem ao Chile e ao Uruguai. Antes de partir, Martinho conversou com o Passavante. Disse acreditar que a Vila poderá repetir o êxito do desfile Kizomba, Festa da Raça, de 1988, quando, sob sua batuta, a escola foi, pela primeira vez, campeã do Grupo Especial.
1 – Você tomou as rédeas do enredo da Vila Isabel no centenário de Noel Rosa. Qual a sua expectativa?
A Unidos de Vila Isabel vai fazer uma festança para ele (e com ele) no próximo carnaval, ocasião em que o gênio será laureado com o enredo Noel – A Presença do Poeta, tema que sugeri ao carnavalesco Alex de Souza. O pesquisador Alex Viana escreveu a sinopse, baseando-se na biografia do Noel Rosa, escrita por João Máximo e Carlos Didier. A minha expectativa é de que consigamos fazer um desfile do nível do Kizomba, A Festa da Raça, mas com outras características. Também estou concorrendo com um samba na quadra.
2 – Você deixou Vila Isabel para morar na Barra da Tijuca. Você se arrepende?
Não me arrependo, mas sinto muitas saudades do bairro de Vila Isabel. Pra matar a saudade, estou sempre por lá. Tenho filhos que moram no bairro, onde também mantenho meu escritório. Quando chego de viagem, saio do aeroporto e costumo dar uma parada na Vila para ver os amigos e sentir o clima do bairro antes de ir para a Barra da Tjuca. Mas também tenho em Duas Barras, minha cidade natal na região serrana, uma propriedade rural (Martinho comprou a fazenda onde nasceu, ao descobrir que estava à venda). Duas Barras compete com o bairro de Vila Isabel. Meu tempo de folga é dividido entre esses dois lugares.
3 – É possível conciliar o sucesso com um trabalho de composição sofisticado?
É muito possivel, desde que a sofisticação não retire a essência popular, que é o mais importante. Gosto de gravar discos temáticos e vários deles, como o Canto das Lavadeiras, foi concebido a partir de pesquisas na cultura popular, onde me abasteço e que é essencial ao meu processo de criação.
4 – Além de Noel Rosa, evidentemente, você destacaria algum outro compositor genial no Brasil. Digamos, uns cinco?
É impossivel, porque não temos somente cinco maiores compositores. É muito mais. Muitos compositores geniais.
5 – Com 40 anos de carreira, qual a reflexão que você faz sobre a música e a cultura popular no Brasil?
Não gosto muito de falar, prefiro cantar e escrever, mas dizem que canto falando e muitos acham que escrevo melhor do que falo. Nasci na cidade de Duas Barras, no Rio de Janeiro, mas a minha infância não foi no interior. Passei na favela Boca do Mato, onde morava com muitos parentes e amigos que vieram de Duas Barras e de várias outras cidades fluminenses e de todo o Brasil em busca de novas oportunidades de vida. Lá, na Boca do Mato, nos reuníamos para cantar, conversar, festejar e fui muito influenciado por isso. E assim tive meu primeiro contato com a folia de Reis, os calangos e o mineiro-pau. Acho que a minha carreira é resultado desse caldo cultural.
Desde Carmem Miranda, a nossa música vem se expandindo pelo planeta graças a nossos artistas. Se houver um projeto bem planejado e uma boa estratégia, a nossa MPB tem condições de impulsionar o Brasil para o seu destino de ser uma grande potência mundial. Não só musicalmente. Para isso é necessário apenas um pouco de nacionalismo. Sou de opinião que, ao menos em termos musicais, devemos ser nacionalistas. Acredito piamente que a nossa música popular ainda vai suplantar a americana no consumo mundial. Se eu fosse Presidente da República, decretaria que o Ministério das Relações Exteriores desse instruções a todos os nossos embaixadores para que, no Sete de Setembro, Dia da Independência, organizasse, junto com o Ministério da Cultura, eventos de música popular em todos os países onde temos representação. Com uma ação dessas, teríamos, anualmente, um dia em que a nossa música popular estaria sendo mostrada em muitos países.
Cláudio Renato
O SAMBA DE MARTINHO DA VILA SOBRE NOEL ROSA - 2010
Compositor: Martinho da Vila
Intérprete: Wantuir
Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel?
Com toda minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu
Seu sambas muito curti
Com a cabeça ao léu
Sua presença senti
No ar de Vila Isabel
Com o sedutor não bebi
Nem fui com ele ao bordel
Mas sei que está presente
Com a gente nesse laurel
Veio ao planeta com os auspícios de um cometa
Naquele ano da Revolta da Chibata
A sua vida foi de notas musicais
Seus lindos sambas animavam carnavais
Brincava em blocos com boêmios e mulatas
Subia morros sem preconceitos sociais
Foi um grande chororô
Quando o gênio descansou
Todo o samba lamentou ô ô ô
Que enorme dissabor
Foi-se o nosso professor
A Lindaura soluçou
E a dama do cabaré não dançou
Fez a passagem pro espaço sideral
Mas está vivo neste nosso carnaval
Também presente Cartola
E o Bando dos Tangarás
Lamartine, Ismael, Aracy e outros mais
E a fantasia que se usa
Pra sambar com o menestrel
Tem a energia da nossa Vila Isabel








