

Que poeta é Lupicínio Rodrigues!, exclamaria Jorge Luis Borges, porque, como no tango, só os mortos vivem nas palavras e nas canções do compositor gaúcho. O negro elegante do extremo sul do Brasil jamais deixou de cantar em cabarés. Rasgava os corações com voz delicada, versos magoados, melodramas exagerados. O jornalista Mário Marona, também dos pampas, está cercado de razão quando diz que Lupicínio é o maior fazedor de tangos do Brasil. É o intérprete por excelência dos bêbados, dos traídos, dos fracassados, dos mortos-vivos, dos abandonados, dos brasileiros sedentos de vingança e perdão. "Lupicínio era dono de um bar num casarão de madeira na beira do Rio Guaíba", conta Marona. "Criança, passava pela frente, de ônibus, e olhava fascinado. Dizem que era um puteiro frequentado pela boemia portoalegrense. Sempre que passávamos, meu pai contava alguma história. Acho que ele era habitué."
Lupicínio Rodrigues desconhecia teoria musical, não tocava qualquer instrumento e tamborilava o ritmo das canções em caixinhas de fósforos. Compunha as melodias de amor traído assoviando, para que o povo também, pelo assovio, as eternizasse. E o assovio é a herança maior que um compositor nos pode deixar, já assinalava o dramaturgo Nélson Rodrigues, ao brindar A Banda, primeiro sucesso nacional de Chico Buarque de Hollanda, em 1966.
Quando os Azes do Samba (Francisco Alves, Mário Reis, Peri Cunha, Nonô e Noel Rosa) visitaram Porto Alegre, em 1932, puderam conhecer de perto e no nascedouro o talento de Lupicínio, que, com apenas 17 anos, se apresentava nos lupanares da cidade. Noel profetizou: "O garoto é bom, vai longe". Emoção maior para Lupicínio foi conhecer Mário Reis, a quem, cantando, procurava imitar os registros macios. Aos poucos, as músicas de Lupicínio viajariam clandestinamente pelo Brasil. Era levada de navio para o Rio de Janeiro pelos marinheiros do Lloyd e da Costeira, frequentadores das zonas de baixo meretrício, os cabarés da praça Mauá.
No assovio e na caixinha, Lupicínio fez perto de 600 canções, das quais 150 ficaram registradas, entre outras, nas vozes de Orlando Silva, Francisco Alves, Cyro Monteiro, Linda Batista, Dalva de Oliveira, Elza Soares, Jamelão e dele próprio. Nervos de Aço, Felicidade (ambas gravadas pela primeira vez em 1947), Esses Moços (1948) e Vingança (1951) estão entre os maiores clássicos do cancioneiro nacional e os mais estrondosos sucessos de consequencias incontroláveis. Ao ponto de uma onda de suicídios ter se espalhado pelo país, quando Linda Batista gravou Vingança - comoção comparável à provocada por Orson Welles, em outubro de 1938, quando o jovem cenarista propôs à Rádio CBS a adaptação radiofônica, sem aviso prévio, de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. Muitos americanos se mataram imaginando que de fato extraterrestres atacavam a Terra.
Lupicinio Rodrigues Filho conta que o pai teve canções gravadas na Espanha, na Bélgica, na França, em Portugal, no Japão, nos Estados Unidos, na Venezuela e em mais uma dezena de países, mas, provavelmente, a composição dele mais executada seja o hino oficial do Grêmio Portoalegrense. Em uma certa tarde de 1953, ano em que o clube completava 50 anos, Lupi e um grupo de amigos bebiam em um tradicional bar da Cidade Baixa. Preparava-se para assistir a mais uma peleja do "mortal tricolor" no Estádio do Timbaúva. Momentos antes da partida, foi informado que os bondes haviam parado. Greve dos motorneiros. Lupi sacou a caixa de fósforos, começou a assoviar e escreveu em um guardanapo os versos. "Até a pé nós iremos/Para o que der e vier/Mas o certo é que nós estaremos/Com o Grêmio onde o Grêmio estiver". Só no fim da partida, em outro botequim, completou a letra. O hino ganhou o concurso nas comemorações do cinquentenário do clube. Foi tão bem acolhido pela torcida que acabou promovido a hino oficial.
A partir de 1971 e até 1974, ano em deu o último sopro, às vésperas de completar 60 anos, no pior sufoco da ditadura, Lupicínio Rodrigues voltaria a gozar de popularidade impressionante, como nos anos 50. Suas músicas de dor de cotovelo foram regravadas por Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gal Costa, Elis Regina, Gilberto Gil, Maria Bethânia. É Caetano - que em 1972 gravou Volta - quem conta que Lupicínio não tinha preconceitos. Após um show para uma plateia conservadora em Porto Alegre, Caetano - que se apresentara em roupas psicodélicas, cabelos longos e trejeitos efeminados - foi apresentado a Lupicínio. Tremia como vara verde. E, ao chegar perto, percebeu que Lupi passara batom nos lábios, para deixar o jovem mais à vontade. A partir de então, o tropicalista pôde compreender melhor a adoração que o poeta concretista Haroldo de Campos devotava ao compositor gaúcho.
Lupicínio Rodrigues nasceu numa vila pobre do bairro Cidade Baixa em Porto Alegre, em 16 de setembro de 1914 e morreu (do coração), na mesma cidade, em 27 de agosto de 1974. Quarto filho do funcionário público Francisco Rodrigues e da dona de casa Abigail, teve 20 irmãos. A tendência à boemia se revelaria na infância. Lupi foi aluno medíocre. Só pensava em cantar, batucar e namorar. Aos 12 anos, já fugia de casa para participar das rodas de cantigas no bairro. Aos 14, em 1928, compôs a primeira canção, uma marchinha de carnaval que nunca foi gravada. Em entrevista ao Pasquim, Lupicínio contou a inacreditável história: "Três anos depois, a marcha conquistou o primeiro lugar num concurso oficial, executada pelo cordão carnavalesco Prediletos. Um ano mais tarde, a música foi executada por outro cordão, o Rancho Seco, e novamente ganhei. E o mais interessante: 20 anos depois, quando eu fazia parte de uma comissão que julgava músicas carnavalescas, me apareceu novamente a marchinha, desta vez cantada pelo grupo Democratas, como autoria de outros dois compositores. Eu não falei nada aos outros membros da comissão e a música novamente venceu. Deixei os meninos receberem o prêmio e até os convidei para tomarem uma cerveja comigo."
Lupicínio completou o curso ginasial e aprendeu o ofício de mecânico. Trabalhou, como operário, numa fábrica de parafusos, foi empurrador de rodas de bonde, baleiro na porta de cinema e entregador de uma livraria. O pai fez de tudo para livrar o guri da boemia. Então, aos 15 anos, com documentos falsificados para 18, Francisco apresentou Lupicínio ao Exército como "voluntário". Nas horas de folga, o rapaz cantava no conjunto formado pelos soldados do batalhão. Em 1932, foi mandado para São Paulo, mas não chegou à frente de batalha da Revolução Constitucionalista. Promovido a cabo, foi transferido para Santa Maria, a 290 quilômetros da capital gaúcha.
E foi em Santa Maria que, aos 18 anos, Lupicínio conheceu Inah, primeiro amor, que lhe marcou profundamenta a obra. Inah rompeu com Lupi, porque não aceitava a vida boêmia do compositor. Por essa ocasião, nasceram Felicidade e Nervos de Aço, dedicadas àquela paixão malsucedida. Lupicínio confessava ter ganhado muito dinheiro com o sofrimento. "Cada uma que me faz uma sujeira, me deixa inspiração para compor. Meu primeiro automóvel foi comprado com o dinheiro de um samba para uma mulher. Minha casa foi adquirida com o dinheiro de um samba que fiz para outra, também por causa de uma traição.". O doloroso rompimento com Inah estimulou Lupicínio a viajar voluntariamente, pela primeira e única vez, em 1939, com destino ao Rio de Janeiro, onde ficaria por seis meses. Nas mesas dos bares cariocas, cantaria com Haroldo Lobo, Ary Barroso e Nássara. O primeiro sucesso nacional foi Se Acaso Você Chegasse (com Felisberto Martins), de 1936, gravado por Cyro Monteiro em 1938 e, mais tarde, em 1959, por Elza Soares. Aos 25 anos, Lupicínio já se tornara lenda nos cabarés, como Lampião no cangaço.
Cláudio Renato








