

Como um profeta atormentado, o astrônomo Augusto Damineli Neto refugiara-se, na segunda metade dos anos 90, nas Montanhas Rochosas, no Colorado, região central dos Estados Unidos. Angústias e incertezas volviam-lhe o pensamento para as margens do rio Jacutinga, em Ibiporã, norte do Paraná, onde, menino, com os pais e dez irmãos, trabalhara como lavrador e boia-fria. A profecia deveria se cumprir entre dezembro de 1997 e março de 1998 para tornar o tabaréu um dos mais respeitados cientistas do planeta.
Doze telescópios de solo - em diferentes países do Hemisfério Sul - e quatro satélites no espaço apontavam para a estrela Eta Carinae, a mais luminosa da Via Láctea, numa operação que custou, à época, US$ 1 milhão. Os aparelhos estavam assestados contra o mesmo lugar no céu para pôr à prova a teoria de Augusto Damineli. O cientista sustentava que um fenômeno cíclico de baixa excitação ("apagão") em determinados elementos químicos da estrela ocorreria a cada 5,52 anos. Era o argumento de que precisava para consolidar a teoria, a mais aceita após 157 anos de observação e estudos, de que a Eta Carinae, coberta de densa nuvem de poeira estelar, seria na verdade um sistema binário: duas estrelas com somatório de massas 200 vezes maior que a do Sol. "Dinossauros não dançam frevo", simplificava Damineli, para quem uma única estrela de tal dimensão não poderia funcionar como um relógio.
Com os estudos sobre Carinae, Damineli desafiava as teorias dos mais conceituados astrônomos do mundo, entre eles o maior rival, o americano Kris Davidson, principal observador da estrela desde a década de 60. Davidson foi o primeiro a comprovar a hipótese de que Carinae está se despedaçando e morrendo. O problema é que sempre sustentou se tratar de uma estrela isolada (single star). "Ele é o marido anterior da Carinae", brincava Damineli, a quem conhecemos, no ano 2000, no Instituto de Astronomia e Geofísica da USP, em São Paulo, onde atua como livre docente. Hoje, aos 62 anos, o cientista é representante do Brasil na International Astronomic Union (IAU), para as comemorações de 2009, o Ano Internacional da Astronomia.
Naquele fim de outono, no Colorado, Damineli esgrimia contra si dúvidas hamletianas. Tinha convicção de que seus cálculos estavam certos, mas físicos prestigiados faziam pouco. "Sou um cientista renomado ou um caipira de rio?", perguntava-se. Até então, Damineli se identificara com o trotskismo e o antiamericanismo, mas a metáfora que lhe ocorria se relacionava ao mercado financeiro. "Sentia-me como um corretor que aconselhara clientes importantes a um negócio de alto risco, e teria a reputação arruinada se perdessem tudo."
A agonia de Damineli só acabou em 12 de dezembro de 1997, quando Carinae começou a sofrer o "apagão", cujo ápice ocorreria no Réveillon. Foi uma dolorosa experiência em que o brasileiro teve de vencer preconceitos de origem. Em junho de 1992, ele observou, por acaso, que a estrela sofrera um "apagão" em comprimentos de ondas específicos relacionados a elementos químicos só excitados com fontes muito energéticas, como o hélio e o argônio. Não podia ser eclipse, porque outros elementos da estrela ficavam "acesos." "Avisei os meus colegas no exterior para que os satélites fossem apontados, mas ninguém levou a sério." Seis meses depois, alguns se convenceram de que o fenômeno poderia ter ocorrido. "Estudei os relatórios dos cem anos anteriores e concluí, a partir de cinco eventos ocorridos com elementos semelhantes, que o fenômeno se repetiria a cada 2.014 dias, com margem de erro de 2%", contava Damineli. "Claro que em alguns relatos não havia registro, mas o fato de um marinheiro ter deixado de descrever um dia no diário não significa que a jornada não tenha se sucedido". Assim, previu o "apagão" de 1997.
A partir de 1996, um satélite da Nasa, o RX-TE, começou a acompanhar Carinae pelo menos duas vezes por semana. "Esta estrela é única na galáxia, um dinossauro vivo, com 2,5 milhões de anos, que acabou de nascer e está morrendo", explicava. "Todas as irmãs de Carinae morreram há 12, 13 bilhões de anos." O astrônomo intuía que, para dispor de um mecanismo regular, a estrela teria de ser duas, na verdade. A teoria do eclipse envolvendo duas estrelas caía por terra, quando só o hélio "apagava" e o hidrogênio não, por exemplo. "As duas estrelas mais corpulentas da galáxia produziriam ventos que, ao se chocarem, esquentariam o conjunto de gases em temperatura calculada em 80 milhões de graus Kelvin."
Era preciso comprovar esta tese. Damineli e o amigo Peter Conti pediram à Nasa pare medir, em raio X, o plasma (gases ionizados) da estrela. O resultado aproximou-se do esperado. Em fevereiro de 2000, o satélite Chandra remediu a temperatura do plasma: 60 milhões de graus Kelvin. "A partir da teoria física consistente, houve um boom de telescópios apontados para a estrela." No espaço, além do RX-TE, os satélites Rosat, Hubble e Beppo foram mobilizados.
Embora invisível e estudada indiretamente, através da nuvem de poeira que a circunda, Carinae é reconhecida como a mais luminosa estrela da galáxia. Luminosidade, segundo a astronomia, pouco tem a ver com o brilho. É a potência intrínseca de luz de um corpo celeste. Já o brilho se refere à aparência e tem relação direta com a distância entre o observador e o observado. Daminelli exemplificava. "Se a Carinae for aproximada à mesma distância do Sol para a Terra, terá o brilho equivalente a 6 milhões de vezes o do astro rei."
Apesar de sustentar que Carinae são duas estrelas, Damineli concorda em tratá-la no singular. "A estrela maior comanda o movimento do sistema." Ele começou a se interessar por Carinae em 1989, após o curso de pós-doutorado no Instituto de Astrofísica Espacial de Roma, ao testar a técnica de observação astronômica com infravermelho na faixa de 1 mícron, que penetraria na poeira. Queria induzir a estrela a um "strip-tease."
Carinae já expeliu metade da matéria original. Poderá explodir em 10 mil anos. Ou, quem sabe, morrer à míngua. "Em caso de explosão, o Hemisfério Sul queimaria todo por causa da impulsão de raios gama", afirmava Damineli. No princípio denominada Eta Argos, por causa da constelação a que pertence, Carinae foi observada com atenção, pela primeira vez, em 1826, curiosamente em São Paulo, pelo astrônomo inglês Willian J. Burchell. Ele ficou intrigado com a oscilação do brilho daquela estrela e enviou uma carta a respeito ao maior astrônomo da época, o também inglês John Herschell, que montara um poderoso telescópio na África do Sul. Em 1843, a estrela sofreu uma erupção e atingiu tanto brilho que ficou visível à luz do dia. Parecia Sírius, a estrela mais brilhante do céu, a apenas 10 anos-luz da Terra. Carinae fica a 7,5 mil anos-luz, o que tornava misteriosa a intensidade do brilho.
Exatamente 20 anos depois da erupção de Carinae, os Damineli, lavradores italianos de Brescia, chegavam a Santa Catarina. Os imigrantes confrontaram-se com os botocudos. "Foi um massacre: os italianos e alemães passaram fogo nos índios", conta Damineli, o neto. Enquanto os "bugres" tinham o sangue derramado no sul do Brasil, os astrônomos europeus tentavam explicar os sinais de Carinae como explosão de uma supernova, mas, por esta hipótese, ela já teria morrido. "O mistério de Eta Carinae é que, após a detonação de 1843, ela não morreu; ao contrário, continou brilhando, o que motivou artigos nos últimos 150 anos", dizia Damineli. Carinae começou a se esconder sob uma nuvem de poeira cujo material daria para constituir 500 vezes a quantidade de planetas do sistema solar.
O pai de Damineli, o lavrador e carpinteiro Salvatino, adorava caça e migrou para o norte do Paraná, perto da cidade de Ibiporã, hoje com 48 mil habitantes. Da tapera de tábuas, coberta de telhas e folhas de palmito e com chão batido, no sítio à beira de um rio e de uma floresta, os meninos viam muitas estrelas. No casebre dos Damineli, nem banheiro havia. Os caminhos eram guiados por lamparinas. Lampião de querosene, só aos domingos. Para atravessar as pinguelas, o clarão da lua os orientava. "Quis estudar quando descobri que seria a maneira de me livrar da vida obtusa da enxada", contou Damineli, que, até os 10 anos, desconhecia as letras e os números.
Na ocasião em que o pequeno Damineli se divertia ao ver o pai conversando com plantas e animais, o americano Kris Davidson, futuro rival, já se dedicava a Carinae. Ele descartava que ela fosse um pulsar, como se supunha. Ao realizar exames químicos dos gases que a envolviam, descobriu uma grande quantidade de nitrogênio que estava sendo jogada para fora da estrela. O mistério de Carinae, no entando, permanecia. "Para tal potência de luz, era preciso que a estrela tivesse pelo menos 160 vezes a massa do Sol." Até o astrofísico inglês Fred Hoyle - oponente da teoria da explosão originária do universo e quem, ironicamente, a batizou de big bang - estudou Carinae.
Aos 4 anos, Damineli dava comida para as galinhas; aos 5, apascentava os bezerros; aos 6, buscava água e ganhava a primeira enxada. A partir dos 7, tinha altura ideal para colher algodão, arrancar feijão e fazer limpeza sob os pés de café. "Minha mãe embrulhava os bebês num paninho e os deixava no mato, enquanto capinava pés de milho." Na época da colheita do café, os seis meninos e cinco meninas tornavam-se boias-frias em sítios vizinhos ou distantes, aonde iam de caminhão. "Comecei a frequentar uma escola estadual a quatro quilômetros de subida, que a gente vencia de pés descalços; só na cidade calçávamos as alparcatas, mas lá não aprendi nada." Nos primeiros anos, Damineli queria ser caminhoneiro e ficar perto da cidade, onde havia escola, rádio, banheiro, luz elétrica e geladeira. "A gente falava caipira, 'nós vai' e 'nós fumo'; o falar português correto só na escola.", conta. "Em casa, se alguém conjugasse o verbo corretamente, todo mundo explodia de rir."
Lá em cima, a misteriosa Carinae esperava o menino que se especializaria no estudo de estrelas de grandes massas. Em Ibiporã, Damineli conseguiu matricular-se no colégio Maria Imaculada. Para pagar o material escolar, levava leite, melancia e peixe para as freiras. "Tenho o maior respeito pelo trabalho no campo e acho que os sem-terra estão certos quando exigem destino social para terras improdutivas.", dizia. "Mas a agricultura no mundo já produz mais de 4 quilos de alimentos diários por habitante; se a riqueza for bem distribuída, nos sobra tempo para aprender." Com o pensamento precocemente iluminista, a vida no campo ainda era mais dura para Damineli. Os irmãos o acusavam de frouxo. "Lá, eu não era ninguém."
Quem descobriu pendores intelectuais em Damineli foi uma certa irmã Benta, que o aconselhou a estudar para ser padre, formação que o menino desconhecia. "Jurava que nasciam homens, mulheres e seres intermediários, de barba e saiote: os padres." Aos 12 anos, foi cursar seminário em Assis, interior de São Paulo. Lá aprendeu humanidades, latim e idiomais neolatinos. "Só muito mais tarde passei a lidar com inglês." Damineli ficou no seminário até os 18 anos. Gostava de arte sacra e canto gregoriano, mas considerava a história bíblica da criação "conto de gibi." Aos 13, conheceu Manoel, seminarista mais velho que lhe contou sobre a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin (1809-1882).
A exigência de provas científicas para os fenômenos e a repressão sexual no seminário afastaram Damineli da religião. "Decidi negar Deus depois de três anos de tormenta", conta. "Rompi com a Igreja Católica na época, por causa da exploração da culpa." Quando conversamos, Damineli se dizia indiferente à ideia de Deus. "Sou amigo do padre George Coyne (então diretor do observatório do Vaticano) e falamos muito em ciência, sem estabelecer vínculos com religião."
No seminário, as idéias políticas pareciam não existir e a filosofia moderna estacionara nos conceitos de Immanuel Kant (1724-1804). Damineli decidiu voltar para a casa da mãe, em Ibiporã. Foi caixeiro viajante e professor particular. Em 1968, aos 21 anos, embalado por Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, e Disparada, de Geraldo Vandré, foi para São Paulo. Trabalhou como apontador de empreiteira, por um salário mínimo. Completou o colegial na Mooca, num período movimentado por greves. Morou em pensões na capital paulista. Obteve uma bolsa de estudos no cursinho Equipe, onde pagava 10% do salário que recebia.
Damineli trabalhou em almoxarifados e escritórios, em horários que lhe permitissem estudar. Dos primeiros anos em São Paulo, recorda-se dos embates entre estudantes e policiais na rua Maria Antônia. Admirava nos jovens da cidade a coragem. "Pobre do interior tinha mais medo da polícia do que de Deus." Contou-nos como passou a ter ojeriza ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) depois de ouvir a peroração de um de seus integrantes. "Um dia o secretário do curso morreu ao tentar pôr uma bomba no consulado americano; eu não tinha ideia do que acontecia." Consciência política só brotou em Damineli no fim do curso de física na USP, em 1973, com a repercussão do assassinato do presidente do Chile, Salvador Allende, e com as aulas de mestres de outros cursos, como o arquiteto Flávio Império e a professora de Filosofia Marilena Chauí.
Foi ao exterior pela primeira vez ao fim do curso de pós-graduação, quando pegou carona para assistir, em Buenos Aires, aos filmes de Costa-Gavras, proibidos no Brasil. Em 1977, cursou o mestrado e, em 1988, o doutorado na USP, com teses sobre estrelas de grandes massas. O pai Salvatino morreu em 1966, aos 64 anos; a mãe, Ida Viola, em 1990, aos 86, analfabeta.
Como professor da USP, Damineli recebia um terço do salário dos colegas americanos, mas o prestígio internacional só aumentava. Graças à teoria dele, foram organizados cinco times de astrônomos no mundo para observar Carinae. Só na Alemanha, até o começo da década, haviam sido produzidas cinco teses de doutorado inspiradas nos ensinamentos do cientista brasileiro, que, garante, jamais teve expectativas em relação ao Prêmio Nobel. "É necessário que, além da descoberta conceitual, o trabalho estimule o desenvolvimento de novas tecnologias." Eric Cornell, então vizinho de quarto de Damineli, no Colorado, acabara de descobrir o quinto estado da matéria, do qual suspeitaram, 75 anos antes, a dupla Albert Einstein e Satyendranath Bose. Cornell desenvolvera em laboratório a tecnologia de resfriamento de uma substância a 1 milionésimo do grau Kelvin - então, a mais baixa temperatura conhecida no universo.
Na tarde em que conversamos, Damineli apostava todos as fichas do Nobel no trabalho de Cornell. Na mosca. Em 2001, Eric Allin Cornell, de apenas 40 anos, receberia o Prêmio Nobel de Física pela criação experimental do condensado de Bose-Eisntein.
Damineli dizia se espelhar em Galileu Galilei (1564-1642), que enfrentou a intolerância da igreja em nome da razão. "Com Galileu, aprendi a lição de que a timidez é a morte para um cientista. Ele trouxe a astronomia para o cotidiano, fez a gente subir ao céu e o céu descer até nós, utilizando o universo como laboratório e mostrando que as estrelas eram formadas de matéria comum. Ao contrário do contemporâneo Johannes Kepler (1571-1630), que acreditava na matemática cósmica, "Galileu polia as lentes e se empenhava nos experimentos."
Doze telescópios de solo - em diferentes países do Hemisfério Sul - e quatro satélites no espaço apontavam para a estrela Eta Carinae, a mais luminosa da Via Láctea, numa operação que custou, à época, US$ 1 milhão. Os aparelhos estavam assestados contra o mesmo lugar no céu para pôr à prova a teoria de Augusto Damineli. O cientista sustentava que um fenômeno cíclico de baixa excitação ("apagão") em determinados elementos químicos da estrela ocorreria a cada 5,52 anos. Era o argumento de que precisava para consolidar a teoria, a mais aceita após 157 anos de observação e estudos, de que a Eta Carinae, coberta de densa nuvem de poeira estelar, seria na verdade um sistema binário: duas estrelas com somatório de massas 200 vezes maior que a do Sol. "Dinossauros não dançam frevo", simplificava Damineli, para quem uma única estrela de tal dimensão não poderia funcionar como um relógio.
Com os estudos sobre Carinae, Damineli desafiava as teorias dos mais conceituados astrônomos do mundo, entre eles o maior rival, o americano Kris Davidson, principal observador da estrela desde a década de 60. Davidson foi o primeiro a comprovar a hipótese de que Carinae está se despedaçando e morrendo. O problema é que sempre sustentou se tratar de uma estrela isolada (single star). "Ele é o marido anterior da Carinae", brincava Damineli, a quem conhecemos, no ano 2000, no Instituto de Astronomia e Geofísica da USP, em São Paulo, onde atua como livre docente. Hoje, aos 62 anos, o cientista é representante do Brasil na International Astronomic Union (IAU), para as comemorações de 2009, o Ano Internacional da Astronomia.
Naquele fim de outono, no Colorado, Damineli esgrimia contra si dúvidas hamletianas. Tinha convicção de que seus cálculos estavam certos, mas físicos prestigiados faziam pouco. "Sou um cientista renomado ou um caipira de rio?", perguntava-se. Até então, Damineli se identificara com o trotskismo e o antiamericanismo, mas a metáfora que lhe ocorria se relacionava ao mercado financeiro. "Sentia-me como um corretor que aconselhara clientes importantes a um negócio de alto risco, e teria a reputação arruinada se perdessem tudo."
A agonia de Damineli só acabou em 12 de dezembro de 1997, quando Carinae começou a sofrer o "apagão", cujo ápice ocorreria no Réveillon. Foi uma dolorosa experiência em que o brasileiro teve de vencer preconceitos de origem. Em junho de 1992, ele observou, por acaso, que a estrela sofrera um "apagão" em comprimentos de ondas específicos relacionados a elementos químicos só excitados com fontes muito energéticas, como o hélio e o argônio. Não podia ser eclipse, porque outros elementos da estrela ficavam "acesos." "Avisei os meus colegas no exterior para que os satélites fossem apontados, mas ninguém levou a sério." Seis meses depois, alguns se convenceram de que o fenômeno poderia ter ocorrido. "Estudei os relatórios dos cem anos anteriores e concluí, a partir de cinco eventos ocorridos com elementos semelhantes, que o fenômeno se repetiria a cada 2.014 dias, com margem de erro de 2%", contava Damineli. "Claro que em alguns relatos não havia registro, mas o fato de um marinheiro ter deixado de descrever um dia no diário não significa que a jornada não tenha se sucedido". Assim, previu o "apagão" de 1997.
A partir de 1996, um satélite da Nasa, o RX-TE, começou a acompanhar Carinae pelo menos duas vezes por semana. "Esta estrela é única na galáxia, um dinossauro vivo, com 2,5 milhões de anos, que acabou de nascer e está morrendo", explicava. "Todas as irmãs de Carinae morreram há 12, 13 bilhões de anos." O astrônomo intuía que, para dispor de um mecanismo regular, a estrela teria de ser duas, na verdade. A teoria do eclipse envolvendo duas estrelas caía por terra, quando só o hélio "apagava" e o hidrogênio não, por exemplo. "As duas estrelas mais corpulentas da galáxia produziriam ventos que, ao se chocarem, esquentariam o conjunto de gases em temperatura calculada em 80 milhões de graus Kelvin."
Era preciso comprovar esta tese. Damineli e o amigo Peter Conti pediram à Nasa pare medir, em raio X, o plasma (gases ionizados) da estrela. O resultado aproximou-se do esperado. Em fevereiro de 2000, o satélite Chandra remediu a temperatura do plasma: 60 milhões de graus Kelvin. "A partir da teoria física consistente, houve um boom de telescópios apontados para a estrela." No espaço, além do RX-TE, os satélites Rosat, Hubble e Beppo foram mobilizados.
Embora invisível e estudada indiretamente, através da nuvem de poeira que a circunda, Carinae é reconhecida como a mais luminosa estrela da galáxia. Luminosidade, segundo a astronomia, pouco tem a ver com o brilho. É a potência intrínseca de luz de um corpo celeste. Já o brilho se refere à aparência e tem relação direta com a distância entre o observador e o observado. Daminelli exemplificava. "Se a Carinae for aproximada à mesma distância do Sol para a Terra, terá o brilho equivalente a 6 milhões de vezes o do astro rei."
Apesar de sustentar que Carinae são duas estrelas, Damineli concorda em tratá-la no singular. "A estrela maior comanda o movimento do sistema." Ele começou a se interessar por Carinae em 1989, após o curso de pós-doutorado no Instituto de Astrofísica Espacial de Roma, ao testar a técnica de observação astronômica com infravermelho na faixa de 1 mícron, que penetraria na poeira. Queria induzir a estrela a um "strip-tease."
Carinae já expeliu metade da matéria original. Poderá explodir em 10 mil anos. Ou, quem sabe, morrer à míngua. "Em caso de explosão, o Hemisfério Sul queimaria todo por causa da impulsão de raios gama", afirmava Damineli. No princípio denominada Eta Argos, por causa da constelação a que pertence, Carinae foi observada com atenção, pela primeira vez, em 1826, curiosamente em São Paulo, pelo astrônomo inglês Willian J. Burchell. Ele ficou intrigado com a oscilação do brilho daquela estrela e enviou uma carta a respeito ao maior astrônomo da época, o também inglês John Herschell, que montara um poderoso telescópio na África do Sul. Em 1843, a estrela sofreu uma erupção e atingiu tanto brilho que ficou visível à luz do dia. Parecia Sírius, a estrela mais brilhante do céu, a apenas 10 anos-luz da Terra. Carinae fica a 7,5 mil anos-luz, o que tornava misteriosa a intensidade do brilho.
Exatamente 20 anos depois da erupção de Carinae, os Damineli, lavradores italianos de Brescia, chegavam a Santa Catarina. Os imigrantes confrontaram-se com os botocudos. "Foi um massacre: os italianos e alemães passaram fogo nos índios", conta Damineli, o neto. Enquanto os "bugres" tinham o sangue derramado no sul do Brasil, os astrônomos europeus tentavam explicar os sinais de Carinae como explosão de uma supernova, mas, por esta hipótese, ela já teria morrido. "O mistério de Eta Carinae é que, após a detonação de 1843, ela não morreu; ao contrário, continou brilhando, o que motivou artigos nos últimos 150 anos", dizia Damineli. Carinae começou a se esconder sob uma nuvem de poeira cujo material daria para constituir 500 vezes a quantidade de planetas do sistema solar.
O pai de Damineli, o lavrador e carpinteiro Salvatino, adorava caça e migrou para o norte do Paraná, perto da cidade de Ibiporã, hoje com 48 mil habitantes. Da tapera de tábuas, coberta de telhas e folhas de palmito e com chão batido, no sítio à beira de um rio e de uma floresta, os meninos viam muitas estrelas. No casebre dos Damineli, nem banheiro havia. Os caminhos eram guiados por lamparinas. Lampião de querosene, só aos domingos. Para atravessar as pinguelas, o clarão da lua os orientava. "Quis estudar quando descobri que seria a maneira de me livrar da vida obtusa da enxada", contou Damineli, que, até os 10 anos, desconhecia as letras e os números.
Na ocasião em que o pequeno Damineli se divertia ao ver o pai conversando com plantas e animais, o americano Kris Davidson, futuro rival, já se dedicava a Carinae. Ele descartava que ela fosse um pulsar, como se supunha. Ao realizar exames químicos dos gases que a envolviam, descobriu uma grande quantidade de nitrogênio que estava sendo jogada para fora da estrela. O mistério de Carinae, no entando, permanecia. "Para tal potência de luz, era preciso que a estrela tivesse pelo menos 160 vezes a massa do Sol." Até o astrofísico inglês Fred Hoyle - oponente da teoria da explosão originária do universo e quem, ironicamente, a batizou de big bang - estudou Carinae.
Aos 4 anos, Damineli dava comida para as galinhas; aos 5, apascentava os bezerros; aos 6, buscava água e ganhava a primeira enxada. A partir dos 7, tinha altura ideal para colher algodão, arrancar feijão e fazer limpeza sob os pés de café. "Minha mãe embrulhava os bebês num paninho e os deixava no mato, enquanto capinava pés de milho." Na época da colheita do café, os seis meninos e cinco meninas tornavam-se boias-frias em sítios vizinhos ou distantes, aonde iam de caminhão. "Comecei a frequentar uma escola estadual a quatro quilômetros de subida, que a gente vencia de pés descalços; só na cidade calçávamos as alparcatas, mas lá não aprendi nada." Nos primeiros anos, Damineli queria ser caminhoneiro e ficar perto da cidade, onde havia escola, rádio, banheiro, luz elétrica e geladeira. "A gente falava caipira, 'nós vai' e 'nós fumo'; o falar português correto só na escola.", conta. "Em casa, se alguém conjugasse o verbo corretamente, todo mundo explodia de rir."
Lá em cima, a misteriosa Carinae esperava o menino que se especializaria no estudo de estrelas de grandes massas. Em Ibiporã, Damineli conseguiu matricular-se no colégio Maria Imaculada. Para pagar o material escolar, levava leite, melancia e peixe para as freiras. "Tenho o maior respeito pelo trabalho no campo e acho que os sem-terra estão certos quando exigem destino social para terras improdutivas.", dizia. "Mas a agricultura no mundo já produz mais de 4 quilos de alimentos diários por habitante; se a riqueza for bem distribuída, nos sobra tempo para aprender." Com o pensamento precocemente iluminista, a vida no campo ainda era mais dura para Damineli. Os irmãos o acusavam de frouxo. "Lá, eu não era ninguém."
Quem descobriu pendores intelectuais em Damineli foi uma certa irmã Benta, que o aconselhou a estudar para ser padre, formação que o menino desconhecia. "Jurava que nasciam homens, mulheres e seres intermediários, de barba e saiote: os padres." Aos 12 anos, foi cursar seminário em Assis, interior de São Paulo. Lá aprendeu humanidades, latim e idiomais neolatinos. "Só muito mais tarde passei a lidar com inglês." Damineli ficou no seminário até os 18 anos. Gostava de arte sacra e canto gregoriano, mas considerava a história bíblica da criação "conto de gibi." Aos 13, conheceu Manoel, seminarista mais velho que lhe contou sobre a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin (1809-1882).
A exigência de provas científicas para os fenômenos e a repressão sexual no seminário afastaram Damineli da religião. "Decidi negar Deus depois de três anos de tormenta", conta. "Rompi com a Igreja Católica na época, por causa da exploração da culpa." Quando conversamos, Damineli se dizia indiferente à ideia de Deus. "Sou amigo do padre George Coyne (então diretor do observatório do Vaticano) e falamos muito em ciência, sem estabelecer vínculos com religião."
No seminário, as idéias políticas pareciam não existir e a filosofia moderna estacionara nos conceitos de Immanuel Kant (1724-1804). Damineli decidiu voltar para a casa da mãe, em Ibiporã. Foi caixeiro viajante e professor particular. Em 1968, aos 21 anos, embalado por Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, e Disparada, de Geraldo Vandré, foi para São Paulo. Trabalhou como apontador de empreiteira, por um salário mínimo. Completou o colegial na Mooca, num período movimentado por greves. Morou em pensões na capital paulista. Obteve uma bolsa de estudos no cursinho Equipe, onde pagava 10% do salário que recebia.
Damineli trabalhou em almoxarifados e escritórios, em horários que lhe permitissem estudar. Dos primeiros anos em São Paulo, recorda-se dos embates entre estudantes e policiais na rua Maria Antônia. Admirava nos jovens da cidade a coragem. "Pobre do interior tinha mais medo da polícia do que de Deus." Contou-nos como passou a ter ojeriza ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) depois de ouvir a peroração de um de seus integrantes. "Um dia o secretário do curso morreu ao tentar pôr uma bomba no consulado americano; eu não tinha ideia do que acontecia." Consciência política só brotou em Damineli no fim do curso de física na USP, em 1973, com a repercussão do assassinato do presidente do Chile, Salvador Allende, e com as aulas de mestres de outros cursos, como o arquiteto Flávio Império e a professora de Filosofia Marilena Chauí.
Foi ao exterior pela primeira vez ao fim do curso de pós-graduação, quando pegou carona para assistir, em Buenos Aires, aos filmes de Costa-Gavras, proibidos no Brasil. Em 1977, cursou o mestrado e, em 1988, o doutorado na USP, com teses sobre estrelas de grandes massas. O pai Salvatino morreu em 1966, aos 64 anos; a mãe, Ida Viola, em 1990, aos 86, analfabeta.
Como professor da USP, Damineli recebia um terço do salário dos colegas americanos, mas o prestígio internacional só aumentava. Graças à teoria dele, foram organizados cinco times de astrônomos no mundo para observar Carinae. Só na Alemanha, até o começo da década, haviam sido produzidas cinco teses de doutorado inspiradas nos ensinamentos do cientista brasileiro, que, garante, jamais teve expectativas em relação ao Prêmio Nobel. "É necessário que, além da descoberta conceitual, o trabalho estimule o desenvolvimento de novas tecnologias." Eric Cornell, então vizinho de quarto de Damineli, no Colorado, acabara de descobrir o quinto estado da matéria, do qual suspeitaram, 75 anos antes, a dupla Albert Einstein e Satyendranath Bose. Cornell desenvolvera em laboratório a tecnologia de resfriamento de uma substância a 1 milionésimo do grau Kelvin - então, a mais baixa temperatura conhecida no universo.
Na tarde em que conversamos, Damineli apostava todos as fichas do Nobel no trabalho de Cornell. Na mosca. Em 2001, Eric Allin Cornell, de apenas 40 anos, receberia o Prêmio Nobel de Física pela criação experimental do condensado de Bose-Eisntein.
Damineli dizia se espelhar em Galileu Galilei (1564-1642), que enfrentou a intolerância da igreja em nome da razão. "Com Galileu, aprendi a lição de que a timidez é a morte para um cientista. Ele trouxe a astronomia para o cotidiano, fez a gente subir ao céu e o céu descer até nós, utilizando o universo como laboratório e mostrando que as estrelas eram formadas de matéria comum. Ao contrário do contemporâneo Johannes Kepler (1571-1630), que acreditava na matemática cósmica, "Galileu polia as lentes e se empenhava nos experimentos."
Cláudio Renato (texto baseado em entrevista feita em 2000, no Observatório Astrônomico da USP, para reportagem institulada "O tabaréu que ouvia estrelas", vencedora do prêmio de jornalismo da Gazeta Mercantil, em 2001)








